12 junho 2007

Os Homens-Invisíveis

As crescentes dificuldades que nosso povo tem enfrentado, haja vista o evidente empobrecimento geral, têm gerado e lançado às ruas um exército de viradores de lixo, catadores de papel, guardadores de carro, moradores de rua (sem-teto), enfim, uma multidão de sem-nada!

Tirante a estética da pobreza, que enriquece poucos e que a mídia explora muito bem, notadamente o cinema e a televisão, resta a verdade nua e crua das rotinas de sobrevivência, onde se confundem situações de exclusão absoluta, degradação humana, alcoolismo, loucura, perda de identidade, entre outras situações.

Miséria, fome, fracasso, sofrimento, é o que têm em comum estes personagens de nosso cotidiano. Eu disse nosso cotidiano?! Errado!

Eles são os homens-invisíveis. Ninguém os vê, ninguém os percebe. Apesar de estarem aqui, ali e acolá, é como se não existissem. Pois esta é uma resolução de nossa sociedade. Ignora-se!

Gestos isolados, como a mão que alcança uns trocados, uma roupa usada, um cigarro pela metade, não tornam seus corpos visíveis por inteiro, salvo a mão estendida.

Seus rostos, seus espíritos, suas almas, continuam nas trevas às quais os relegamos. Nem ousamos olhar em seus olhos porque insuportável.

Olhar fixamente em seus olhos é como uma fotografia que nos acompanhará para sempre. Incomodativa e indeletável!

São homens, mulheres e crianças, são os homens- invisíveis que caminham à margem de nossos belos e floridos jardins, com quem cruzamos à caminho do trabalho, à saída para as baladas noturnas, à porta de nossas soberbas e centenárias igrejas e palácios de governo.

São nossos irmãos estes homens-invisíveis!


De frente pro crime

Tá lá o corpo estendido no chão
Em vez de rosto uma foto de um gol
Em vez de reza uma praga de alguém
E um silêncio servindo de amém
Pôxa, cara, tô ligado no seu drama
Com a cara nessa lama teve medo de morrer
de viver, de sofrer, de nem ter o que comer
Ninguém liga pra você
Ninguém liga nem nunca ligou
O bar mais perto depressa lotou
Malandro junto com trabalhador
Um homem subiu na mesa de um bar
E fez discurso pra vereador
É, ninguém liga pra você nem nunca ligou
Hoje sobra tanta indiferença, indignação
Falta luz, falta governo, falta educação
Tanto que com o preconceito em alta
Só não sentem a tua falta, meu irmão!
Veio camelô vender anel, cordão, perfume barato
E baiana pra fazer pastel e um bom churrasco de gato
Quatro horas da manhã baixou o santo na porta-bandeira
E a moçada resolveu parar e então
Tá lá o corpo estendido no chão
Quem sabe agora você pode descansar,
Se livrar da injustiça
Desse medo dos bandidos
Medo da polícia
Maldita cena projetada na janela
TV de todo dia, gente pobre é sempre réu
O que te resta é um pouco dessa lua
Refletida na sarjeta, teu pedaço lá do céu
Sem pressa foi cada um pro seu lado
Pensando numa mulher ou num time
Olhei o corpo no chão e fechei
Minha janela de frente pro crime

(música de João Bosco e Aldir Blanc - 1975)

07 junho 2007

A Universidade Estadual e Seu Erro de Nascença

A criação e desenvolvimento de uma universidade estadual é uma meta administrativa complexa e polêmica, seja pelas razões econômico-financeiras do empreendimento (e do próprio Estado), seja quanto à natureza de sua definição estratégico-pedagógica.

Na véspera de sua criação legal, tive oportunidade de participar de inúmeras atividades de mobilização, estudos e divulgação. Pois, a razão deste artigo é justamente recuperar uma concepção pessoal acerca de uma hipótese alternativa de implemento e concretização da UERGS, já defendida à época.

No meu entendimento, o pressuposto essencial para a definição e caracterização de uma universidade estadual pública demandaria a prévia confecção de um raio-x das atuais universidades gaúchas - federais, privadas e comunitárias, de modo a demonstrar sua situação patrimonial-financeiro, humana, físico-estrutural, grau de inserção social, áreas de influência geográfica e pedagógica, os graus de expectativa e repercussão sócio-econômica regionais, entre outros indicadores (1).

Com certeza, este diagnóstico haveria de revelar a importância e a necessidade de promover, primeiramente, a integração institucional e acadêmica das regiões e do Estado (2).

Consequentemente, promover e assegurar a representação da sociedade, a previsão e oneração dos municípios via lei Orgânica Municipal, o comprometimento empresarial, a formalização rotineira de convênios nacionais e internacionais de repercussão técnico-pedagógica e financeira (3).

O estudo prévio revelaria, também, com certeza, a urgência e necessidade de democratização política e administrativa das atuais universidades, a publicidade de suas planilhas de receitas e despesas, comprometendo-as com metas de otimização das receitas e redução de custos (4).

O máximo atendimento destes pré-requisitos (1-2-3-4), pelas atuais universidades, seria o pressuposto de acesso a um crédito educativo estadual ampliado, aos recursos de pesquisa e aos convênios/parcerias com a futura universidade estadual pública.

Na realização (ou não) destes pré-requisitos se revelariam as condições necessárias de ação/intervenção de uma hipotética universidade estadual. Aliás, cujas metas deveriam se concentrar em áreas altamente estratégicas e especializadas, fundada nos princípios da auto-sustentabilidade, inspirada no trinômio negócios-tecnologia-ecologia, e tendo como regra básica a não sobreposição de objetivos e cursos em relação às demais e atuais entidades universitárias.

Finalmente, sua base de apoio pedagógico - material e humano - deveria se constituir a partir dos recursos existentes (entre as atuais universidades privadas e/ou públicas, comunitárias e/ou federais), realizando seus objetivos através de contratos temporários, de médio e longo prazo, planos de metas e gestão, norteando e se concentrando - sempre e apenas - nos seus fins, e não na constituição de repetitivos, onerosos e comprometedores meios físicos e humanos, a exemplo de construção de prédios e contratação de professores.

05 junho 2007

Políticos e o Mal de Alzheimer

O Mal de Alzheimer é uma doença degenerativa do cérebro caracterizada por uma perda das faculdades cognitivas e de memória.

O nome da doença é um tributo aos estudos realizados por Alois Alzheimer (1864-1915), neuropatologista alemão (ver Wikipédia na internet).

O início da doença pode se dar com alterações de personalidade. Com a progressão da doença, se agravam efeitos de amnésia. .

Não se trata de uma simples falha na memória, mas sim de uma progressiva incapacidade. Na sua fase adiantada, os pacientes já não apresentam mais condições de se perceberem doentes, por falha da autocrítica.

Há uma piora crescente na consciência de si próprio e dos outros. Sintomas depressivos são comuns, com instabilidade emocional e choros. Há uma total perda de noção de lugar e de tempo.

Agora, me diga, são ou não são sintomas típicos de muitos políticos brasileiros?! Esquecem tudo, compromissos, promessas, companheiros, partidos e vergonha na cara. Virou epidemia. Surto. Praga.

Esquecem, principalmente, a origem e o destino do dinheiro da campanha eleitoral, do dinheiro pessoal, do dinheiro dos financiadores de campanha. Esquecem até como pagaram suas próprias despesas!

Esquecem os nomes das pessoas, o local e a data de suas reuniões, o destino e a razão das viagens que realizaram. Perdem suas agendas e esquecem todos seus telefonemas.

No escândalo mais recente, o senador Renan Calheiros também não lembra a origem do dinheiro com que pagava a “pensão alimentícia” da filha de três aninhos de idade. R$12.500,00 por mês! Imagina lembrar-se de uma merreca dessas!

Jacques Wagner, recém eleito governador da Bahia, também não lembra quem era o dono da lancha emprestada que utilizou para passear com a Ministra Dilma Roussef.

Antes deles, o Delúbio, o Silvinho, o Marcos Valério, Roberto Jefferson e demais participantes da gangue do mensalão, também esqueceram nomes, procedimentos, valores e contas bancárias. Esqueceram tudo.

Quando flagrados em contradições (e delitos), entram em depressão, choram copiosamente e, regra geral, apresentam atestado médico. Enfim, todos os sintomas são típicos e coincidentes.

Mas há outros casos interessantes. Fernando Henrique Cardoso não só esqueceu o que havia escrito, como pediu para que a gente também esquecesse. Pode?

O caso de Lula é gravíssimo. Esqueceu tudo. O passado de sindicalista, as origens do PT, as denúncias que fazia contra os governos anteriores, os tradicionais adversários políticos, o lucro dos bancos. Esqueceu até mesmo porque mesmo é que queria ser Presidente. E, ultimamente, anda com mania de perfeição!

O agora senador Collor de Mello também esqueceu tudo, tanto que voltou à Brasília como se nada houvera no passado. Mas, estranhamente, sempre pareceu que ele tinha uma certa consciência sobre a gravidade e inevitabilidade da doença, tanto que pedia insistentemente: “Não me deixem só!”.

Mas há quem diga que o mal de Alzheimer é uma doença endêmica que também afeta o eleitorado brasileiro a cada quatro anos.

Bem, haja vista a similaridade patológica, e como sugestão para os cientistas nas pesquisas laboratoriais do Mal de Alzheimer, creio que poderiam usar alguns políticos ao invés de ratos.

29 maio 2007

Profissão 5198

O acesso à profissão é livre aos maiores de dezoito anos; a escolaridade média está na faixa de quarta a sétima série do ensino fundamental. O pleno desempenho das atividades ocorre após dois anos de experiência.

As condições gerais de exercício profissional são: trabalham por conta própria, na rua, em bares, boates, hotéis, porto, rodovias e em garimpos. Atuam em ambientes a céu aberto, fechados e em veículos, em horários irregulares. No exercício de algumas das atividades podem estar expostos à inalação de gases de veículos, a intempéries, a poluição sonora e a discriminação social. Além de riscos de contágios de DST, sofrem maus-tratos, violência de rua e morte.

Competências pessoais complementares são importantes, a exemplo de: demonstrar capacidade de persuasão e expressão gestual, capacidade de realizar fantasias eróticas, agir com honestidade, demonstrar paciência, planejar o futuro, prestar solidariedade aos companheiros, ouvir atentamente (saber ouvir), demonstrar capacidade lúdica, respeitar o silêncio do cliente, demonstrar capacidade de comunicação em língua estrangeira, demonstrar ética profissional, manter sigilo profissional, respeitar código de não cortejar companheiros de colegas de trabalho, proporcionar prazer, cuidar da higiene pessoal, conquistar o cliente, demonstrar sensualidade.

A descrição sumária de suas atividades diárias diz que batalham programas sexuais em locais privados, vias públicas e garimpos; atendem e acompanham clientes homens e mulheres, de orientações sexuais diversas; administram orçamentos individuais e familiares; promovem a organização da categoria. Realizam ações educativas no campo da sexualidade; propagandeiam os serviços prestados. As atividades são exercidas seguindo normas e procedimentos que minimizam as vulnerabilidades da profissão.

Tocante a formação e experiência pessoal, o exercício profissional requer que os trabalhadores participem de oficinas sobre sexo seguro oferecidas pelas associações da categoria. Outros cursos complementares de formação profissional, como por exemplo, cursos de beleza, de cuidados pessoais, de planejamento do orçamento, bem como cursos profissionalizantes para rendimentos alternativos também são oferecidos pelas associações.

Igualmente importantes são os recursos de trabalho: guarda-roupa de batalha, preservativo masculino e feminino, cartões de visita, documentos de identificação, gel lubrificante à base de água, papel higiênico, lenços umedecidos, acessórios, maquilagem, álcool, telefone celular e agenda.

A profissão 5198 também atende pelos títulos de “profissional do sexo, garota de programa, garoto de programa, meretriz, messalina, michê, mulher da vida, prostituta, puta, quenga, rapariga, trabalhador do sexo, transexual e travesti”.

Todas as informações acima foram extraídas do saite do Ministério do Trabalho e Emprego, mais precisamente na Classificação Brasileira de Ocupações-CBO. São contribuintes do INSS (www.mtecbo.gov.br).

Palavras do Ministério: “A existência de um código e a organização desses profissionais facilita tanto o trabalho dos ministérios (saúde e previdência) como potencializa a eficácia dos programas de disseminação de informações”.

Justo, não? Afinal, dizem que é a profissão mais antiga do mundo!

Mensalinho e Mensalão

Não, não é uma nova dupla caipira da popular música sertaneja. Trata-se de mais uma inovação governamental federal, na falta do que fazer.

Com a experiência de quem gestou o mensalão, o governo começa a semana anunciando “um bicho extra” para gurizada passar de ano na escola. É o “mensalinho”, uma propinazinha para turbinar os estudos.

Mais um vale-qualquer coisa. Coisa pouca para quem já tem bolsa-alimentação, vale-transporte, vale-gás, bolsa-escola, salário-família, programa de renda mínima, vale-etc... Só não tem dinheiro e emprego.

Anúncio de mais tempo, o Programa de Aceleração do Crescimento, o PACquiderme amestrado, não anda nem pra frente, nem para os lados. Mas na propaganda de televisão retumba como se de fato existisse. A peso de ouro!

Aliás, semanalmente, o governo tem novidades. Outro dia anunciou – e vai fazer mesmo, pasmem!, a criação de uma televisão pública federal, cujo orçamento inicial já passa de 300 milhões.

Mas como disse o ministro aos jornais: “A proposta do governo será conhecida em 15 dias, para debate, e em dois meses será editada uma medida provisória criando a TV Pública”. Disse mais: “O governo ainda não sabe quanto terá que investir na criação da TV.”

É assim mesmo. Sem planejamento prévio, sem orçamentos. Feito criança, quer porque quer, não interessa quanto custa. Afinal, dinheiro não é problema. O incrível é que eles não ficam corados!

Aliás, os não corados de vergonha querem mais, além de uma TV só para eles. Querem reintroduzir a censura prévia na televisão brasileira, a ponto de provocar um manifesto à nação pelas associações nacionais de jornais, revistas, rádio e televisão (Brasília, 8 de maio de 2007).

Mas sai semana, entra semana, uma coisa é sempre igual. O auto-elogio.

O governo autista de Lula (também nominado de “próximo da perfeição da silva” ou “luís inácio como nunca dantes igual na história do brasil”) conta vantagens e lorotas.

“Mortos” de ciúmes, Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek já não “dormem” direito.

Diariamente, Lula coloca seu disco velho de 78 rotações na eletrola – com a agulha de diamante gasta, e repete, e repete: “A economia está bem, nunca esteve tão bem. A economia está bem, nunca esteve tão bem.” E a agulha não sai do lugar.

Lula puxa a brasa para seu assado e finge ignorar as razões externas pelas quais o seu veleiro navega em brisas favoráveis.

São mundiais os ventos serenos, as águas cálidas e tranqüilas no mar dos negócios internacionais. Como nunca dantes na história do comércio mundial!

São ventos que sopram também para os demais países em desenvolvimento. Aliás, com indicadores sócio-econômicos muito melhores que os nossos.

Ao invés trabalhar na redução dos impostos e na conseqüente diminuição do tamanho do estado, o governo navega em sentido contrário.

Enquanto isto, desorganizado e sem representação política, o povo se diverte com os corruptos jogados na arena dos leões.

E fica a sonhar que a seleção cinematográfica de um corrupto por semana, com direito a exibição em rede nacional de TV, vá diminuir a corrupção nacional.

Com quarenta por cento de carga tributária, centenas de impostos e taxas, bilhões em arrecadação, um estado gigantesco e intervencionista, o filé mignon não vai acabar. Nem a corrupção. E nem a “criatividade” governamental!

14 maio 2007

d'O Jeitinho Que o Povo Gosta

Das aulas sobre história brasileira, deveríamos ter aprendido com mais atenção àquela que diz respeito ao fato de que o Estado foi criado antes da constituição de uma sociedade civil.

Relembrando, à época da colonização, não houve resistência local ao modelo e projeto do estado português. Depois do fracasso das capitanias hereditárias, o governo português inventou os governadores-gerais. E com eles, a burocracia.

Há registros históricos sobre o desembarque de nobres, funcionários públicos, soldados e criminosos (réus e degredados). Aliás, quase todos solteiros e interessados em grana fácil. Não houve a imigração de famílias, ou por motivação religiosa, como na América do Norte.

Pois, resultou uma estrutura estatal forte, organizada, centralizadora e burocrática. Que não encontrou resistência civil. Conseqüentemente, nossa incipiente sociedade de então se adaptou a esta estrutura estatal.

Segundo o ilustre gaúcho de Vacaria, advogado e historiador Raimundo Faoro (1925-2003), a responsabilidade pelo nosso subdesenvolvimento é do aparelhamento burocrático, herdeiro da administração colonial portuguesa.

Trata-se do domínio de uma casta de altos funcionários aliada ao patronato político cujos interesses comuns formam uma associação parasitária.

Juntos compõem uma rede que, espalhada pelo país, extrai dele tudo o que pode (leia Os Donos do Poder, 1958). Repito, a sociedade submissa se adapta!

Consequentemente, o fruto principal dessa deformação histórica e dessa adaptação social é o “jeitinho brasileiro”.

Com o passar do tempo, lei e ordem passaram a significar pouco, ou quase nada, em nosso comportamento social. Fraudes, falsificações, desrespeito a contratos, entre outros exemplos, são atitudes que não sofrem imputação ou reprovação moral.

Assim, não surpreendem a corrupção disseminada e os sucessivos escândalos políticos e comerciais. Não faltam notícias e episódios diários que relacionam a conduta do brasileiro ao famoso estigma de “querer levar vantagem em tudo”.

Seguidamente, repercute o expressivo número de fraudes relacionadas à distribuição e utilização do Programa Bolsa Família. Valores insignificantes. Mas não o suficiente para inibir a tentação e o oportunismo.

Inúmeras dessas fraudes são praticadas por autoridades, a exemplo de vereadores, lideranças políticas, funcionários municipais, em conluio com pessoas do povo e da própria comunidade.

Esses delitos comportamentais, ainda que de menor valor ou conseqüência social, não deixam de traduzir uma índole suspeita. Uma carência de perspectiva ética balizadora.

Em verdade, estamos a merecer, como povo e sociedade, um apurado estudo de caráter sociológico/psicológico, de modo a revelar, ou complementar, teorias sobre o caráter do povo, sobre a natureza (a)ética do brasileiro.

Auto-contestação: ou então, não é nada disto acima descrito, e sim, simplesmente, falta de educação, repressão, punição e cadeia!

De qualquer modo, possível e infelizmente, estudos e atitudes que nos levarão a desagradáveis constatações e conclusões.

08 maio 2007

Teu Outro Cartão de Crédito

Sabias que tu tens outro cartão de crédito, usado por estranhos e pago por ti, denominado cartão de crédito corporativo?

Os cartões de crédito do governo servem para que determinados servidores possam fazer pagamentos ou saques sem precisar de uma autorização prévia.

O uso dos cartões de crédito corporativos foi criado em 2001, ainda no governo Fernando Henrique Cardoso(1995-2002), para facilitar os pagamentos de rotina das autoridades, limitados a pequenos valores.

Ainda assim, em 2002, o pagamento de faturas e saques com cartões da Presidência da República somou R$ 1,3 milhão.

Já no Governo Lula, em 2004, os gastos com cartões da Presidência atingiram R$ 5,2 milhões. Além disto, outros 68 órgãos federais gastaram R$ 8,9 milhões, sendo R$ 5,1 milhões em dinheiro vivo.

Em 2005, o total de gastos foi de R$ 21 milhões. Dos quais R$ 10,2 milhões foram da Presidência, com saques em dinheiro de R$ 6,8 milhões.

O funcionário recordista no uso dos cartões para realizar saques movimentou quase R$ 330 mil entre os meses de janeiro e dezembro de 2005. Em dinheiro vivo. Outros dois colegas movimentaram R$ 321 mil e R$ 294 mil.

Entre os 48 ecônomos de departamentos e órgãos ligados ao Palácio do Planalto, oito sacaram acima de R$ 250 mil durante aquele ano, registrou o Siafi.

Em meados de 2006, segundo dados do Sistema Integrado de Administração Financeira - Siafi, já haviam sido gastos R$ 34,4 milhões.

Só a Presidência já havia gasto R$ 10 milhões. Dos R$ 10 milhões, metade foram saques em dinheiro vivo.

O Ministro Marcos Vilaça, do Tribunal de Contas da União-TCU, responsável pela fiscalização, anotou em seu relatório: “A equipe de auditoria registra a existência de dificuldades para a obtenção de detalhes relativos às transações efetuadas com cartão de crédito".

A falta de transparência é mais grave nos saques em dinheiro. Sem registros dos fornecedores de bens e serviços nas faturas dos cartões de crédito.

Diante da pressão por informações, a Secretaria de Administração da Presidência da República informou que “não é permitido o fornecimento de informações detalhadas dos gastos com as peculiaridades da Presidência da República, por questões de segurança".

No último debate presidencial, falando em caixa-preta do cartão de crédito corporativo, o candidato Geraldo Alckmin perguntou a Lula: “O cartão corporativo do seu gabinete teve crescimento exponencial. O senhor abre o sigilo dos gastos do cartão de crédito?"

Satisfeito? Melhor ficar! Imagina se tu ficas sabendo de todos estes gastos, um a um, detalhadamente, quem gastou o quê, por quê, quando e com quem? Melhor não saber.

Mas tem o lado bom desta história. Tu nem sabias que tinha todo esse crédito em conta, hein? Mas tem que entrar na fila para usar o “teu outro cartão de crédito”!

02 maio 2007

O Aniversário do Coronel

O fim-de-semana santa-cruzense foi muito rico para o folclore político local e para os pesquisadores das ciências sociais.

Objetivamente, refiro-me às repercussões e comentários inerentes e decorrentes à teatralidade festiva do aniversariante ilustre.

Não restam muitas adjetivações possíveis para descrever a construção do mito local. De histórico, práticas e valores polêmicos, mas inspirado e legitimado pelos mandatos eleitorais adquiridos, move-se como que imantado por um salvo-conduto comportamental.

Em seu universo mágico prevalecem conceitos ético-políticos muito próprios, a exemplo da publicidade e ostensividade do seu mais aclamado convidado.

Uma animada e sorridente caminhada pelas ruas centrais da cidade desafiou a memória popular dos fatos recentes que enxovalharam a política nacional e lesaram os cofres públicos.

Mas a ponderar pela fila de abraços e cumprimentos e poses fotográficas, o convidado foi política e moralmente anistiado. Ou será apenas parte da memória pública esclerosada?

O mitificado anfitrião e o anti-herói convidado sorriem, ainda que meio sem jeito. Inteligentes que são, bem dissimulam. Mas seu sorriso “amarelo” ainda é bem menor que o “amarelo” sorriso do povo.

Mas o que importa a “cor” de um sorriso, ou a não-autenticidade de um gesto naquilo que se denomina um jogo. E, em sendo um jogo, de verdade não é! Ou é?

Verdades e mentiras, crimes e inocência, defeitos e virtudes, piadas e fofocas, tudo transcende ao seu próprio significado.

A verdade sucumbe diante da construção de um mito. O mito se sobrepõe a quaisquer julgamentos de valor acerca de qualquer coisa. O mito tem o poder da sedução.

O povo se “entrega” e assiste à metódica desconstrução da verdade, sob o predomínio da indiferença e da não indignação.

A julgar pela peregrinação e o beija-mão, a sedução do mito é tão intensa que sucumbem emergentes valores e vocações pessoais.

Claro, é da natureza dos partidos e do político seu agudo instinto de sobrevivência. Muda o discurso, muda o comportamento, muda o que for necessário e de acordo com a nova perspectiva. Submetem-se às exigências do vir-a-ser.

É tão “natural e inocente” seu procedimento que “todos” assimilam e legitimam seus valores e sua conduta. Então, como é possível desafiar a verdade nova e sua inevitabilidade temporal?

Tudo isto significa que nada mais é absoluto e, portanto, não há princípios ou limites. Tudo é permitido, tudo é relativo. Não há mais valores e compromissos inalteráveis.

24 abril 2007

Yeda e o Homem Invisível

A governadora do estado pediu ao novo secretário de segurança pública que se mantenha “invisível”, na medida das possibilidades. Trata-se de um pedido de realização impossível.

Antecipo que não examinarei a questão do ponto de vista da fraqueza humana, relacionado a um dos sete pecados capitais, qual seja, a vaidade. Ainda que na política um pecado aceitável, eis que inerente ao meio e à “sobrevivência” do sujeito.

Mas o pedido refere-se a uma (in)visibilidade total ou parcial, relativa ou absoluta? Cabe esclarecer estas diferenças.

A “invisibilidade” pretendida deverá ocorrer relativamente aos níveis de visibilidade da própria governadora? Ou será relativamente aos demais secretários? Afinal, todos investidos e revestidos de profundas e iguais responsabilidades de gestão.

Mas o quê, realmente, determina o grau de visibilidade de uma autoridade pública? A personalidade da própria ou os fatos que lhe dizem respeito? Ou, ainda, as circunstâncias eventuais, positivas e negativas, que caracterizam a inconstância da prestação de nosso serviço público?

No caso em questão, me aparece óbvio que são os fatos e as atribuições da Secretaria da Justiça e da Segurança que determinam sua visibilidade.

O povo elegeu a segurança pública como seu maior drama e tem expectativa de soluções governamentais. Consequentemente, se compreende porque seus responsáveis diretos sejam objetos da mídia.

Como já estamos no fundo do poço mesmo, significa agregar que qualquer ato positivo se reveste de simpatia popular.

Bem, e quanto às demais secretarias, qual poderia mostrar-se capaz de disputar os holofotes da imprensa? Saúde? Provavelmente. Nem preciso justificar. Uma tragédia governamental. Educação? Pouco provável. Já não comove ninguém, contaminada pela desesperança.

Aliás, em relação a estas três tarefas públicas, diga-se, de passagem, a população reage diferentemente. E os governantes (e os políticos, em geral) na mesma proporção.

O desastre educacional não gera conseqüências políticas relativamente aos seus (ir) responsáveis porque o prejuízo não tem dimensão instantânea. Quantificável em número e (falta de) qualidade apenas gerações seguintes.

A saúde apenas comove aquele que diretamente envolvido, ou como profissional, ou como cidadão objeto de uma doença que exija a prestação de serviços públicos. Trata-se de uma indignação localizada e personalizada. Esvai-se com o tempo. Por isto não muda nada.

Já a demanda por segurança é diferente. Virou uma síndrome, uma epidemia, um contágio universal. Ainda que não diretamente atingido, o cidadão se sente potencialmente alvo fácil e imediato.

Antes de demitir algum próximo secretário, a governadora precisa compreender que são as particularidades das crises setoriais e as expectativas populares que determinam a intensidade dos holofotes.

Mas, e os holofotes na Governadora como ficam? Infelizmente, tocante aos papéis e responsabilidades da governadora é de se supor - a realidade indica - que poucas notícias positivas serão possíveis.

Notadamente relacionada às finanças e a incapacidade estatal de dar conta das demandas públicas, atuais, reprimidas e supervenientes, a crise (estrutural) perpassa a capacidade gerencial da governadora. Terreno árido e sem luzes!

10 abril 2007

Janelas Quebradas

O assunto diz respeito à ação da polícia, da justiça e da comunidade. Conhecido no meio jurídico e acadêmico, raramente vem a público de forma simples e direta.

Depois de muitos anos de criminalidade crescente, os Estados Unidos apresentam expressiva redução de criminalidade. E a que se deve isso? Em 1982, estudiosos americanos estabeleceram uma relação de causalidade entre desordem e criminalidade.

Janelas quebradas. Este foi o exemplo de desordem que utilizaram. Se uma janela de uma casa, prédio ou fábrica fosse quebrada, e não fosse imediatamente consertada, as pessoas poderiam concluir que ninguém se importava com isso. E mais: que não havia autoridade responsável pela manutenção.

Na seqüência, outras janelas seriam quebradas. As pessoas concluiriam que ninguém seria responsável por aquele prédio, nem pela rua. Assim, começaria a decadência do bairro e daquela comunidade.

Outros exemplos poderiam ser equiparados às “janelas quebradas”. Lixo crescente na rua. Terrenos sujos e abandonados. Crianças e adolescentes desordeiros, sem repreensão dos adultos. Ocupação de frentes de lojas e bares, bebedeiras, brigas e desordens. Depredações, pichações, desrespeito aos proprietários e vizinhos.

Conclusão: a desordem, mesma pequena, levaria à desordem maior. E mais tarde ao crime. Ou seja, a tolerância com pequenos delitos e contravenções conduziria à criminalidade.

No mesmo estudo, os autores afirmaram, também, que a relação de causalidade entre desordem e criminalidade era mais forte do que a relação entre criminalidade e a pobreza, minorias raciais, desemprego e falta de oportunidades.

Em Nova Iorque, a tolerância com a desordem e os pequenos ilícitos foi determinante para a progressiva decadência urbana. Os (maus) exemplos estavam no crescimento das gangues, na ocupação de parques, praças e metrôs por desocupados e sem-teto, nas pichações de prédios públicos e particulares, principalmente. Mas o exemplo mais significativo de tolerância e não repressão ocorria no metrô. Muitos não pagavam a passagem. Pulavam as catracas. Eram as “janelas quebradas” de Nova Iorque.

Assim, com base na teoria das janelas quebradas (broken windows theory), foi adotada a política criminal de "tolerância zero", notadamente na gestão do prefeito Rudolf Giuliani.

Sistematicamente, as forças policiais da cidade realizaram, caso a caso, região por região, o combate à desordem e aos pequenos delitos. Foi restaurada, inclusive, a integração polícia-comunidade através do patrulhamento a pé. E desde 1994, os índices criminais vêm diminuindo.

Mas esta prática preventiva e repressiva não foi uma questão consensual na comunidade. Muitos críticos argumentavam que a polícia perseguia apenas os pobres, os necessitados e as minorias.

Mas, diante dos resultados visíveis e favoráveis à Polícia e à maioria da população, os críticos perdiam a razão. O problema não era a condição das pessoas, mas sim o seu comportamento.

Até então, a desordem também crescera, se expandira e fora tolerada, porque vários desvios comportamentais foram considerados como expressão de liberdade e direitos individuais.

Porém, lenta, mas seguramente, prevaleceu a compreensão de que o desejo e a necessidade por ordem e segurança não podiam ser entendidos como uma lesão aos direitos individuais.

Assim, os valores comunitários positivos se contrapunham ao crescimento da desordem e da criminalidade. O desejo de ordem e paz era comum a todas as classes sociais e grupos étnicos.

E nós, brasileiros, combatemos a desordem e os pequenos delitos? Creio que é o caso de refletirmos e aprendermos com a experiência de Nova Iorque.

03 abril 2007

Pornografia Política e o Apagão da Vergonha

Tirem as crianças da sala. Desliguem a TV. O noticiário tem mostrado cenas e discursos pornográficos. Pornografia política.

O Presidente Lula continua inovando. Depois da esmola pública, também chamada de Bolsa-Família, agora criou o Bolsa-Oposição.

Trata-se da compra dos partidos de oposição sob o discurso de um governo de coalizão política. A mercadoria negociada são 36 ministérios e secretarias especiais.

De verdade, é a distribuição grosseira de cargos com o único fim de neutralizar as críticas ao marasmo governamental e anular as tentativas de esclarecimentos dos escândalos e da malversação do dinheiro público.

Aliás, é tanto escândalo que tem fila. Os escândalos têm que tirar senha para serem esclarecidos. Mas como agora não haverá mais CPI, nem investigação alguma, tudo ficará calmo. Como nos cemitérios.

Mas não foram só os partidos de oposição que se renderam. As principais categorias sindicais também. E os estudantes “caras pintadas” preferem correr atrás do Bush.

Sem gatos e com queijo à vontade, alguns ratos afugentados já ensaiam sua volta ao poder. Uns já voltaram à cena (do crime) através do voto.

E os que ainda não conseguiram voltar, agora viraram consultores. No caso, nome chique e moderno para “traficante de influência”.

Sumiram também os “revolucionários de ontem”. Queimaram seus discursos. Sepultaram a coerência. Aliás, os revolucionários também estão na fila. Na fila de milionárias indenizações por danos pessoais e profissionais sofridos durante a ditadura.

Resumindo, de novo os cidadãos e eleitores são desrespeitados. Há um descumprimento dos papéis institucionais reservados aos partidos. Isto é, uns de governar, e outros de fazer oposição e fiscalizar, principalmente.

Fica aquela sensação incômoda de quebra de confiança e delegação, confirmando a máxima popular de permanente desconfiança em relação aos políticos.

Claro que os defensores do governo dirão que se trata de formar uma maioria no Congresso, capaz e suficiente para promover um conjunto de reformas importantes para a nação. Compreensível e importante, é verdade!

Mas qual é o conjunto de reformas inadiáveis para a nação? Qual é a natureza das reformas e quem são seus possíveis perdedores (pagadores) ou vencedores (beneficiários)?

Este é o debate que deveria anteceder a formação das alianças partidárias. A definição do conjunto das reformas e o balanço de perdas e ganhos sociais, possibilitando uma visão de conjunto, suficiente para a compreensão e avaliação do povo, e, sobretudo, para a responsabilização partidária.

Está bem, vou parar de reclamar. Vamos às notícias boas. Vem aí uma nova atração. Uma televisão pública e estatal, que não vai “puxar o saco” do governo, e que custará apenas 250 milhões. Te cuida, Faustão. Vem aí o Domingão do Lulla.

A outra notícia boa é que o IBGE refez as contas sobre o PIB brasileiro. Mudou alguns critérios de cálculo e chegou à conclusão de que o Brasil cresceu. Mais do que no tempo do FHC. Agora, além do Haiti, passamos à frente do Paraguai e El Salvador.

Tchan, tchan, tchan! Notícia boa sempre me faz lembrar da música das vitórias do Airton Senna. Que saudades daquelas manhãs de domingo. Saudade de tanta coisa!

27 março 2007

Bakunin, Orwell e os Porcos

“Tão logo se tornem governantes ou representantes do povo(...) não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana." Bakunin

Mikhail Alexandrovich Bakunin (1814-1876) não era um adivinho, mas um estudioso das estruturas de poder e da natureza da condição humana; inspirado, possivelmente, nos exercícios e abusos de poder de Cromwell(Inglaterra) e da Revolução Francesa.

Bakunin é o principal pensador e propagador do Anarquismo. Uma teoria política que almeja criar uma sociedade que funciona sem hierarquias políticas, econômicas e/ou sociais. Os anarquistas defendem a ausência de governos, na suposição de que um sistema social só funciona com a maximização da liberdade individual e da igualdade social, metas auto relacionadas

Bakunin defendia que o esforço revolucionário deveria ser concentrado na destruição das "coisas" (leia-se Estado), e não das "pessoas". Afirmava que a centralização da autoridade e do Estado criavam um obstáculo ao desenvolvimento das pessoas e das nações.

Rompido com comunistas e socialistas, haja vista seu viés autoritário, Bakunin lidera a criação de grupos anarquistas em vários países do mundo, pregando o anti-autoritarismo, o mutualismo e o princípio descentralizador.

Uma de suas afirmativas: "Assim, (...)chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e pôr-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana."

E o que tem os porcos a ver com isto? É tempo de (re)ler a Revolução dos Bichos(1945), de George Orwell(1903-1950).

Para Compreender a Violência

Nós estamos no fundo do poço. Há quem diga que já passamos do fundo do poço. É verdade! Basta relacionarmos os inúmeros episódios recentes de violência explícita, tais como a morte do índio pataxó (queimado por jovens de classe média), o jornalista Tim Lopes (torturado e queimado por bandidos), a série de crianças estupradas e assassinadas, os ônibus incendiados com passageiros dentro, os ataques no Rio de Janeiro e em São Paulo. É uma lista sem fim e sem limites de crueldade.

E qual tem sido nossa reação ao crime organizado e à violência em geral? Abaixo-assinados, passeatas, criação de ongs, entre outras atitudes passageiras e sem objetividade prática. Notícias de jornal e tv que noutro dia dão lugar às notícias mais recentes (novos crimes).

Em comum, nossas reações têm o pedido de paz. Paz? Paz, não! Queremos justiça, ação policial, condenações, prisões. Queremos e precisamos da ação do Estado (ação municipal, estadual e federal).

Mas, sobre os pedidos de paz, façamos uma reflexão. Ainda que a maioria não seja afeita a raciocínios de natureza filosófica, isto é, àquelas elocubrações que pretendem a compreensão e/ou constituição racional das coisas que nos cercam.

A professora paulista Marilena Chauí (USP), em um antigo estudo sobre a violência, já observava que vários “dispositivos” e atitudes contribuem para ocultar a violência real e suas razões. Entre eles, destacava:

(1) um sistema jurídico que localiza a violência apenas nos crimes contra a propriedade e a vida;

(2) um sistema sociológico que considera a violência um momento no qual os grupos sociais "atrasados (eles)" entram em contato com grupos sociais "modernos (nós)". É o momento em “os desadaptados (eles)" tornam-se violentos;

(3) a vigência de uma distinção entre um "nós brasileiros não-violentos" e um "eles violentos". “Eles" são todos aqueles que, "atrasados" e deserdados, empregam a força contra a propriedade e a vida de "nós brasileiros não-violentos";

(4) e uma prática de distinção entre o essencial e o acidental: a sociedade brasileira não seria violenta. A violência seria apenas um acidente na superfície social sem tocar em seu fundo essencialmente não-violento. Isto explica, inclusive, porque os meios de comunicação se referem à violência com as palavras "surto", "onda", "epidemia", "crise", isto é, palavras que indicam algo passageiro e acidental.

Conseqüentemente, as desigualdades e as exclusões, o autoritarismo que regula todas as relações sociais, a corrupção, o racismo, o sexismo, as diversas formas de intolerâncias, não são consideradas formas de violência.

Isto é, a sociedade brasileira não é percebida (e não se auto-percebe) como estruturalmente violenta e por isso a violência aparece como um fato esporádico superável.

Esporádico e superável? Afinal, somos ou não somos violentos? E o que você acha? Pare, pense e reflita! Talvez ainda haja tempo de realmente salvarmos nossa pátria.

Jesus Cristo Vende!

O oscarizado cineasta James Cameron (Titanic, Exterminador do Futuro I e II, Aliens) resolveu dar o golpe do baú, a exemplo do autor do livro Código da Vinci. Afinal, fé e religião são ótimos produtos comerciais. Vendem fácil.

Recentemente, Cameron anunciou o seu documentário "O Túmulo de Jesus", apresentado no canal Discovery. O documentário é sobre uma possível descoberta do túmulo de Jesus e da sua família num local próximo de Jerusalém. Cameron pretende provar que Jesus Cristo não ressuscitou.

O arqueólogo israelita Amos Kloner já declarou que o documentário não constitui prova científica. Disse mais: "Jesus e seus parentes eram uma família da Galiléia, sem laços com Jerusalém. O túmulo encontrado pertencia a uma família de classe média do século primeiro".

Mas o chumbo grosso contra Cameron vem dos religiosos, como também ocorreu com o escritor Dan Brown, autor d’O Código Da Vinci.

Autoridades religiosas de Israel e da igreja católica afirmam que “as provas” de Cameron não conferem com a doutrina cristã e que a ressurreição de Cristo é um dos pilares da fé cristã.

Ademais, os católicos, os protestantes e os ortodoxos não reconhecem descendência alguma de Jesus Cristo. Sorte de James Cameron é que a inquisição já não existe.

Jogada de marketing ou não, a verdade é que o revisionismo histórico sempre houve. No caso da religião, os historiadores (e curiosos) são estimulados e provocados pelos evangelhos apócrifos.

Esses evangelhos (apócrifo significa não autêntico e/ou de origem desconhecida) são documentos que foram rejeitados pela Igreja por ocasião da consolidação dos principais ensinamentos doutrinários, a fim de favorecer o crescimento e a popularização do cristianismo.

Como sempre, é tudo uma questão de perspectiva, de ponto de vista. Ironicamente, os moradores da região - onde foram encontrados os túmulos - estão satisfeitos, prevendo os bons efeitos do turismo. Sim, por que qualquer história sobre Jesus Cristo vende bem. Fé e religião à parte, é grana no bolso o que move o mundo!

Aliás, a propósito da existência e origem de Jesus, tem uma história muito engraçada. Vários representantes de países se reuniram para discutir sobre onde realmente nascera Jesus. Cada qual defendia que Jesus tinha nascido em seu respectivo país. E apresentava três provas/argumentos.

1) Que Jesus era judeu: assumiu os negócios do pai, viveu em casa até os 33 anos e tinha certeza de que a mãe era virgem, e a mãe tinha certeza de que ele era Deus;

2) Que Jesus era irlandês: nunca foi casado, nunca teve emprego fixo e seu último pedido foi uma bebida;

3) Que Jesus era porto-riquenho: o nome dele era Jesus, sempre teve problemas com a lei e a mãe dele não sabia quem era o seu pai;

4) Que Jesus era italiano: falava com as mãos, tomava vinho em todas as refeições e trabalhou no comércio;

5) Que Jesus era californiano: nunca cortou o cabelo, andava descalço e inventou uma nova religião;

6) Que Jesus era francês: nunca trocava de roupa, não lavava os pés e não falava inglês;

7) Que Jesus era brasileiro: nunca tinha dinheiro, vivia fazendo milagres e se ferrou na mão do governo.

Deboche e Fingimento

Vocês viram? Aumento de 26,49% para deputados, ministros, presidente, vice-presidente! Vai respingar também no bolso dos deputados estaduais (sim, elles tem uma lei que garante ¾ do salário dos deputados federais). Ah, e ainda tem todo o Poder Judiciário - federal e estadual. Também quer seu pedaço do filé mignon!

Pior é o fingimento, o deboche. A conversa começou com 92%, lá por novembro e dezembro. É o bode na sala. Depois vão recuando, recuando, e fica por 26,49%. Podiam ter arredondado para 27%, né?

Aí você reclama e elles falam dos seus direitos, que está na lei, etecétera e tal. Este papo de direito é conversa para enrolar o povo.

Direitos transformados em instrumentos de benefícios privados não são direitos. Direitos que não se estendem à população. Privilégios é o que são!

Pergunte para qualquer aposentado sobre quantos salários ele contribuiu e o que realmente está ganhando, atualmente. Aí não existe lei, nem direito adquirido. Só existe para elles.

Estes “Poderes de Estado” constituem-se, hoje, em ilhas de privilégios. Oligarguias modernas! O Estado brasileiro foi “capturado” e o povo “escravizado”. Está sob controle político e econômico de elites corporativas.

Brasília é uma festa só! Não sei o que o pessoal enxerga em Nova York, Berlim, Tóquio. Lugar nenhum chega aos pés de Brasília. É o paraíso na terra. É tudo gente sem pecado. Vão direto pro céu. Para o paraíso. Nem param no portão de São Pedro (agora vem o Papa e elles estarão na primeira fila!).

Omissão por omissão, pior é aquele metalúrgico famoso. Lembra? Que se fez na vida contestando o sistema, os ricos, os usineiros (agora os seus novos heróis nacionais! Teus não! Heróis delle, do Lulla).

Todo seu discurso, objeto de sua carreira, ascensão e glória (pessoal) foi para o ralo. Bem, a gente compreende. É tudo passado. O que importa é o futuro. Não o seu. Não o do povo. O futuro delles.

Mas no fundo a culpa de tudo isto é nossa. Desde sempre, reclamamos da política e dos políticos. Deve ser porque sempre prometeram mundos e fundos. Deve ser também porque sempre acreditamos nas promessas. Ou fazíamos de conta que acreditávamos. E de tanto fazer de conta já não sabemos mais se acreditamos ou não.

O mais grave é que os próprios políticos também já não sabem mais o que fazem e qual é seu real papel. O jogo político, a promessa não cumprida, o faz-de-conta nos jornais e na TV, tudo se transformou num grande jogo e encenação.

Políticos e eleitores, governantes e cidadãos, ninguém mais sabe se é espectador ou ator. Fazer e/ou deixar de fazer, cumprir e/ou não cumprir, fiscalizar e/ou não fiscalizar, agir e/ou omitir-se, fingir e/ou não fingir que faz, cumpre e fiscaliza, que diferença faz para o político e a política se a sociedade conjuga os mesmos verbos no mesmo tempo? Então, resumindo, o negócio (delles) é aproveitar a festa. Você não foi convidado!

A verdade é que nós perdemos a noção/a razão de que deve haver sempre uma relação entre os fins e os meios. Estamos nos tornando cínicos. Comportamos-nos como condenados a aceitar determinado jogo e realidade porque não podemos mudá-la. Pior: sabemos que isto está errado e que não deve/deveria ser assim.

A realidade deixou de ser um desafio e virou um destino. Sociedade e política vivem o auto-engano. O alimento do auto-engano é o círculo vicioso.

Em sua segunda campanha presidencial, em 1919, Rui Barbosa já dizia: “consideram o nosso país e o nosso povo como um país de resignação ilimitada e eterna indiferença, povoado por uma ralé (...), concebidos e gerados para a obediência".

12 março 2007

A Alegria do Futebol: A Epopéia Colorada

Não sei quem estava mais tenso neste domingo pela manhã: se torcedores colorados ou gremistas. Sim, porque quando se trata de Grêmio e Inter, não importa qual dos dois, ou quem seja o adversário, ambos estão sempre em campo, um direta, e o outro indiretamente, travestido sob o uniforme do adversário do momento.
E assim, nesta condição, revezam-se gremistas e colorados, ora torcendo pelo próprio time, ora “secando” o rival. Não importa em que local do planeta! Se futebol de campo, jogo de peteca, ou jogo de botão!
E assim sucedeu-se desde cedo. O Japão era apenas o distante e geográfico local do jogo. O verdadeiro jogo foi jogado no Rio Grande do Sul. Aqui pipocavam os foguetes e os rojões. Nunca houve tantas camisetas do Barcelona nas ruas de todas as cidades gaúchas. Inclusive, cidades gaúchas fora do Estado. Sim, só os gaúchos têm cidades fora do Rio Grande do Sul.
Nunca um vilão teve tamanha chance de virar herói. Refiro-me ao Ronaldinho Gaúcho, ex-amor dos gremistas. Como diziam, ultimamente, era sua chance de sair da calçada da lama para a calçada da fama do Olímpico. Mas não foi o que aconteceu.
O que aconteceu é o que você viu e eu vi também. Os atletas colorados ignoraram o prestígio, a fama e a média salarial dos galácticos e esperaram, pacientemente, o contra-ataque fatal.
Claro que, como gremista que sou, poderia tentar desfazer e dizer que o Barcelona não entrou em campo, que não jogou, etecetera e tal, ou que o goleiro espanhol defendeu apenas uma bola durante a partida inteira. A segunda ele deixou passar! Mas são detalhes secundários: o Internacional venceu!
Findo o jogo, pensei nas inúmeras “flautas” que haveremos de suportar. Claro que ainda serão menores que as nossas. Afinal, o Grêmio continua bicampeão das Américas e com dois carimbos japoneses no passaporte.
Findo o jogo, repito, comecei a lembrar, um a um, de dezenas e dezenas de amigos, ex-colegas de trabalho, irmãos, sobrinhos, todos colorados. Uns mais fanáticos, outros menos. Fiquei pensando na profunda alegria de que deveriam estar acometidos naquele momento mágico. Abraçados uns aos outros, chorando, gritando, agitando sua orgulhosa e rubra bandeira, enfeitando o carro para a derradeira e inevitável carreata.
Então, comecei a realizar vários telefonemas de congratulações. E, vejam só – me perdoem os gremistas mais fanáticos do que eu, mas senti uma alegria crescente. A cada telefonema que eu dava, e a cada resposta trêmula de emoção colorada do outro lado da linha, confesso, também eu fiquei feliz. E (re)descobri que a idéia central da felicidade e da alegria está no seu compartilhamento. Não importa a motivação. Pode ser até um jogo de futebol!

Miojo e Filosofia

Recentemente, morreu o criador das massas tipo miojo, o japonês e fundador do grupo Nissin, Momofuku Ando. Segundo pesquisa de opinião, trata-se de uma das grandes invenções dos últimos 100 anos.

Sim, isto mesmo. Estou falando daquela massinha básica que você faz em casa quando a mulher não está, ou quando os pais não estão, incrementada com aquele guizadinho e o molho de anteontem. Sucesso de culinária entre os cada vez mais freqüentes moradores solitários, marca de nossa época de filhos independentes, mulheres e homens solteirões, separados e viúvos longevos.

Mas as massas rápidas têm uma significação mais ampla, mais marcante. Simbolizam, sobretudo, a celeridade absoluta de nossa época, a pressa e impaciência que nos comandam, de vídeos e fotos instantâneas, de amizades virtuais e orkutianas, de namoros e casamentos de três minutos.

Impaciência e pressa que reinam até mesma à mesa de refeições. Foram-se os tempos de famílias reunidas para preparar e degustar a refeição coletivamente, a celebração da amizade e da vida, entre sorrisos, histórias e reminiscências familiares.

Reuniões à mesa do jantar, também, por que não dizer, já que a mensagem e as palavras nem sempre são doces, para “a lavação de roupa suja”. Talvez não queiramos assumir, mas parece que as massas rápidas ajudaram, além de “acelerar” o tempo, a (não) resolver nossas diferenças pela não reunião.

Nada contra “seu” Momofuku Ando e sua criação, mas nossa próxima janta bem que poderia ser à base de muitas colheres de conversação, pitadas de sorriso e alegria, e com muito tempero de vida!

Eu Quero um Dia do Homem

Mas agora eu quero um Dia do Homem para que possamos, também, nos libertar de tantas “pragas” e condicionamentos.

Quinta-feira é o dia internacional da mulher. Data símbolo de inúmeros direitos e conquistas femininas. Uma breve viagem no tempo é suficiente para mostrar os notáveis progressos que elas fizeram, notadamente aqueles de natureza econômica e social, capazes de determinar e ampliar sua auto-suficiência.

Reduzidas as desigualdades econômicas e educacionais entre homens e mulheres, permanecem, no entanto, as “atribuições masculinas”, que também podem ser transformadas.

Não me refiro à diferença natural, genética e biológica, mas à conta do que recai sobre os homens, adicionalmente, sobre consciência e ombros, tamanhas as históricas diferenças culturais e comportamentais.

Também sofremos a tirania dos costumes. Queremos, pois, nos livrar de algumas obrigações; não propriamente das obrigações, mas de seu peso, de sua significação.

Ainda não superamos a “obrigação” juvenil e competitiva que exige provas diárias de nossa capacidade de sedução, de conquista da fêmea. Obrigação diretamente ligada aos nossos níveis de auto-estima estética, psicológica e biológica. Isto sem falar em (falta de) dinheiro.

Alguém faz idéia do peso das obrigações íntimas, de corresponder, por exemplo, às ditas fantasias femininas? Não importa se estamos falando de coisas reais ou irreais. Elas também “existem” nas fantasias e discursos masculinos, agindo sobre nosso corpo, condicionando ações e reações.

Ainda somos “cornos” se nossas parceiras nos deixam, optando por outro companheiro, não importam as razões. Afinal, este rótulo latino-americano trata de uma perda amorosa, ou, objetivamente, de uma perda de posse e poder, logo, de desvalorização e queda hierárquica no mundo dos machos?

Bem, é verdade que já lavamos roupas, trocamos fraldas, cuidamos dos filhos... Mas ainda sofremos o estigma do homem-provedor, a obrigação de dar certo, a tarefa de “levar dinheiro para casa”.

Conhecem a sensação que se apodera de um homem que convive com uma mulher que ”ganha mais do que ele?” Se o homem não tiver coragem de confessar, pergunte a uma mulher!.

De outra parte, imagine, na cabeça e corpo deste mesmo homem, “deste mundo”, a significação devastadora do desemprego.

Bem, fico feliz pelas mulheres e suas conquistas. Mas agora eu quero um Dia do Homem, para que possamos, também, nos libertar de tantas “pragas” e condicionamentos e, principalmente, saber conviver com esta nova mulher e as novas formas de sentir e compreender “as coisas”.

O Inferno é Logo Ali, Depois da Curva

(sobre juventude, desigualdade e desemprego)

A adolescência e juventude são períodos no qual a convivência pública toma o lugar, ainda que não totalmente, das relações familiares. São os novos grupos de relacionamento. Período novo de experiências e descobertas. Além de ampliar as perspectivas pessoais, trata-se, essencialmente, da constituição do sujeito e sua aceitação social.

Entretanto, não o que estamos vendo. Um número cada vez maior de jovens promove um estreitamento de suas relações e dos espaços passíveis de ocupação e circulação. Inclusive, os mais frágeis e suscetíveis à competição e à violência desenvolvem novas formas de isolamento, gerando preocupações clínicas aos pais.

Na verdade, trata-se de uma resposta racional e biológica ao “mundo” herdado, “um mundo” decadente, “um mundo” onde não é (mais) possível viver (mais). Objetivamente, trata-se de um processo de isolamento e defesa dos privilégios que os outros invejam e gostariam de (ob)ter, por bem ou por mal.

Qual a explicação? Pesquisas confirmam o que já sabíamos no dia-a-dia, nas notícias de jornal, nas filas do desemprego, etc..., isto é, a dificuldade de ascensão social, de mobilidade social. A mobilidade social – ascender(subir) de uma classe social para outra de nível superior – está diretamente associada à questão educacional e ao (des)emprego. Resumo: a desigualdade é a marca da sociedade brasileira.

O quadro é perturbador porque está diretamente associado à incerteza que recai sobre o futuro da juventude. O desemprego provoca o que os cientistas sociais chama de “transversalidade”: a experiência com a polícia/trabalho/desemprego.

Somos uma sociedade doente. Criminalidade, violência e desorganização social são as evidências. Proliferam novas formas de dominação, há um crescimento dos sentimentos de medo e insegurança, há o estímulo de uma “cultura do excesso”, etc... Fatores que afetam negativamente a organização social e comprometem a comunidade. Reina e governa a tensão.

Alimentamos conflitos e discriminações assentadas em classes sociais, em questões de gênero, raciais, religiosas, tocante à opção sexual, ao estilo, às idéias regionais, ao comportamento. Já discriminamos as pessoas, inclusive, face ao seu local de moradia.

Somos uma sociedade hipócrita. Muito competitiva e não solidária. Não é a toa que crescem certas seitas e religiões que oferecem aos jovens uma nova ideologia, uma espiritualidade, uma identidade, uma opção de inclusão social.

Se não é o inferno, o que será?

Escravos Tributário-Legislativos e a Covardia Cívica

A Receita Federal (SRF) anunciou mais um recorde de arrecadação. Em 2006, os brasileiros recolheram R$ 392 bilhões em impostos e tributos federais(não falei em impostos estaduais e municipais). O anunciante e orgulhoso funcionário da Receita destacava a eficiência do fisco e o desempenho da economia(sic). Deveria ter demonstrado vergonha de fazer tal anúncio!

Escravizado pelo sistema legal e tributário, e sem representação política confiável e inovadora, a população sofre e vê, dia após dia, a corrupção disseminada e seu dinheiro escorrendo pelo ralo governamental.

Os governos não têm sido capazes de articular-se com a sociedade, de enfrentar os focos de desperdício de dinheiro público, de acabar com estruturas burocráticas e arcaicas, de estabelecer uma relação moderna, eficaz e descentralizada.

Governo e políticos, em geral, discursam sobre o otimismo e a esperança. Puro ilusionismo. Pura anestesia. Pura enganação. Não há espetáculo do crescimento. Só o PAC. Programa de Aceleração da Catástrofe. O único e deprimente espetáculo é o do crescimento da arrecadação tributária.

Há várias situações em que se justifica a presença extraordinária dos governos, além dos tradicionais “saúde-educação-segurança”. Por exemplo, na superação de desigualdades sociais e regionais. Neste sentido, admite-se a correspondente e necessária arrecadação adicional de tributos, suficientes para o custeio específico.

Mas devemos ter em mente que os impostos devem guardar nexo causal e coerência. Ademais, os impostos não são eternos. A sociedade deve, sempre, repensar os tipos de impostos e adequá-los ao seu tempo, à sua capacidade de pagamento e ao tamanho do estado(União, Estado e Município) que necessita. Hoje, mais do que nunca, a sociedade está no seu limite de resistência físico-psicológica-contributiva.

Uma vez que lhes está reservada a competência de mudar as leis e influir nos rumos dos governos e a definição da pauta político-econômica, é lastimável a inoperância e a omissão dos políticos e seus partidos, auto-proclamados representantes do povo.

Aliás, neste quadro de escravidão tributária e legislativa, abusos e corrupção, a que estamos submetidos, qualquer nação já estaria em situação de desobediência civil e greve geral, entre outras reações populares.

Mas, os aspectos mais surpreendentes são o alastramento e a imensidão do silêncio e da omissão. Não só representantes empresariais e sindicais, mas todos nós, cidadãos, estamos amordaçados por alguma circunstância e inevitabilidade poderosa e constrangedora. Somos, de fato, uma nação? Será covardia cívica?

Infelizmente, somos escravos tributários e legislativos. Escravos sem amor à liberdade e sem capacidade de indignação. Talvez não sejamos merecedores da liberdade!