10 outubro 2007

A Nação Gradeada

Vivemos tão (con)centrados em nossas preocupações diárias que não percebemos uma série de coisas em nosso derredor. Não é que a gente não perceba. Apenas não paramos para pensar e refletir sobre o estado das coisas e as soluções necessárias para a superação das dificuldades.

Refiro-me à questão social. A pobreza, o desemprego em larga escala, as crianças na rua sem pai nem mãe, o lixo revirado por humanos famintos, a miséria humana em cada calçada. E o banditismo.

Pior. Além de não pensarmos, nem refletirmos, nos sentimos acuados, ameaçados. Vejam só no que se transformaram nossas casas, nossos pátios, nossas empresas. Estamos enjaulados. A nação está, literalmente, gradeada.

Mas já não é apenas a propriedade que está aramada e cercada. Nos carros andamos trancados. À porta das casas, guaritas. Guaritas guardadas por mal-assalariados, candidatos à desempregados, ou trabalhadores fazendo bico. Gente com medo “protegendo” outras pessoas com medo maior.

As ruas se transformaram em imensos corredores gradeados. Verdadeiros alçapões. Quem precisar correr, fugir, buscar socorro em alguma casa ou pátio alheio, não tem por onde entrar, para onde correr. Presa fácil do bandido da hora, da ocasião.

Em cada transeunte, cada cidadão que passa, vemos um suspeito, uma ameaça ao nosso bolso, uma ameaça à nossa integridade física. Estamos afundados na síndrome do pânico, da desconfiança, da insegurança. Incapazes até de reagir construtivamente.

Somos uma nação à beira de um ataque de nervos!

09 outubro 2007

Janelas Quebradas

O assunto diz respeito à ação da polícia, da justiça e da comunidade. Conhecido no meio jurídico e acadêmico, raramente vem a público de forma simples e direta.

Depois de muitos anos de criminalidade crescente, os Estados Unidos apresentam expressiva redução nos indices. E a que se deve isso? Em 1982, estudiosos americanos estabeleceram uma relação de causalidade entre desordem e criminalidade.

Janelas quebradas. Este foi o exemplo de desordem que utilizaram. Se uma janela de uma casa, prédio ou fábrica fosse quebrada, e não fosse imediatamente consertada, as pessoas poderiam concluir que ninguém se importava com isso. E mais: que não havia autoridade responsável pela manutenção.

Na seqüência, outras janelas seriam quebradas. As pessoas concluiriam que ninguém seria responsável por aquele prédio, nem pela rua. Assim, começaria a decadência do bairro e daquela comunidade.

Outros exemplos poderiam ser equiparados às “janelas quebradas”. Lixo crescente na rua. Terrenos sujos e abandonados. Crianças e adolescentes desordeiros, sem repreensão dos adultos. Ocupação de frentes de lojas e bares, bebedeiras, brigas e desordens. Depredações, pichações, desrespeito aos proprietários e vizinhos.

Conclusão: a desordem, mesma pequena, levaria à desordem maior. E mais tarde ao crime. Ou seja, a tolerância com pequenos delitos e contravenções conduziria à criminalidade.

No mesmo estudo, os autores afirmaram, também, que a relação de causalidade entre desordem e criminalidade era mais forte do que a relação entre criminalidade e a pobreza, minorias raciais, desemprego e falta de oportunidades.

Em Nova Iorque, a tolerância com a desordem e os pequenos ilícitos foi determinante para a progressiva decadência urbana. Os (maus) exemplos estavam no crescimento das gangues, na ocupação de parques, praças e metrôs por desocupados e sem-teto, nas pichações de prédios públicos e particulares, principalmente. Mas o exemplo mais significativo de tolerância e não repressão ocorria no metrô. Muitos não pagavam a passagem. Pulavam as catracas. Eram as “janelas quebradas” de Nova Iorque.

Assim, com base na teoria das janelas quebradas (broken windows theory), foi adotada a política criminal de "tolerância zero", notadamente na gestão do prefeito Rudolf Giuliani.

Sistematicamente, as forças policiais da cidade realizaram, caso a caso, região por região, o combate à desordem e aos pequenos delitos. Foi restaurada, inclusive, a integração polícia-comunidade através do patrulhamento a pé. E desde 1994, os índices criminais vêm diminuindo.

Mas esta prática preventiva e repressiva não foi uma questão consensual na comunidade. Muitos críticos argumentavam que a polícia perseguia apenas os pobres, os necessitados e as minorias.

Mas, diante dos resultados visíveis e favoráveis à Polícia e à maioria da população, os críticos perdiam a razão. O problema não era a condição das pessoas, mas sim o seu comportamento.

Até então, a desordem também crescera, se expandira e fora tolerada, porque vários desvios comportamentais foram considerados como expressão de liberdade e direitos individuais.

Porém, lenta, mas seguramente, prevaleceu a compreensão de que o desejo e a necessidade por ordem e segurança não podiam ser entendidos como uma lesão aos direitos individuais.

Assim, os valores comunitários positivos se contrapunham ao crescimento da desordem e da criminalidade. O desejo de ordem e paz era comum a todas as classes sociais e grupos étnicos.

E nós, brasileiros, combatemos a desordem e os pequenos delitos? Creio que é o caso de refletirmos e aprendermos com a experiência de Nova Iorque.

06 outubro 2007

Pontue sua vida!

Um professor de Direito dizia o seguinte aos alunos:
Toda história tem quatro verdades.
1 - A verdade do seu cliente, que você irá defender.
2 - A verdade da outra parte, que o outro advogado irá defender.

3 - A verdade do juiz, que a terá com base no que os advogados afirmarem e comprovarem( sentença ).
4 - A verdade verdadeira, o que de fato aconteceu.

Resultado:
A verdade está em acreditar naquilo que julgamos ser verdade, e cada indivíduo tem a sua, com base no seu caráter, educação e meio no qual vive.
Pontue a sua vida!
Um homem rico estava agonizando, à beira da morte.
Pediu papel e caneta. Escreveu assim:
"Deixo meus bens à minha irmã não a meu sobrinho
jamais será paga a conta do padeiro nada dou aos pobres"
Morreu antes de fazer a pontuação.
A quem deixava ele a fortuna?
Eram quatro concorrentes.
1) O sobrinho fez a seguinte pontuação:
Deixo meus bens à minha irmã? Não!
A meu sobrinho.
Jamais será paga a conta do padeiro.
Nada dou aos pobres.

2) A irmã chegou em seguida. Pontuou assim o escrito:
Deixo meus bens à minha irmã.
Não a meu sobrinho.
Jamais será paga a conta do padeiro.
Nada dou aos pobres.

3) O padeiro pediu cópia do original.
Puxou a brasa pra sardinha dele:
Deixo meus bens à minha irmã? Não!
A meu sobrinho? Jamais!
Será paga a conta do padeiro.
Nada dou aos pobres.

4) Aí, chegaram os pobres da cidade.
Um deles, sabido, fez esta interpretação:
Deixo meus bens à minha irmã? Não!
A meu sobrinho? Jamais!
Será paga a conta do padeiro? Nada!
Dou aos pobres.

Moral da estória:
Assim é a vida.
Pode ser interpretada e vivida de diversas maneiras.
Nós é que colocamos os pontos.
E isso faz toda a diferença.
Pontue corretamente sua vida,
para não dar margem a erros de interpretação.

05 outubro 2007

Escravos Tributário-Legislativos e a Covardia Cívica

A Receita Federal (SRF) anunciou mais um recorde de arrecadação. Em 2006, os brasileiros recolheram R$ 392 bilhões em impostos e tributos federais(não falei em impostos estaduais e municipais). O anunciante e orgulhoso funcionário da Receita destacava a eficiência do fisco e o desempenho da economia(sic). Deveria ter demonstrado vergonha de fazer tal anúncio!

Escravizado pelo sistema legal e tributário, e sem representação política confiável e inovadora, a população sofre e vê, dia após dia, a corrupção disseminada e seu dinheiro escorrendo pelo ralo governamental.

Os governos não têm sido capazes de articular-se com a sociedade, de enfrentar os focos de desperdício de dinheiro público, de acabar com estruturas burocráticas e arcaicas, de estabelecer uma relação moderna, eficaz e descentralizada.

Governo e políticos, em geral, discursam sobre o otimismo e a esperança. Puro ilusionismo. Pura anestesia. Pura enganação. Não há espetáculo do crescimento. Só o PAC. Programa de Aceleração da Catástrofe. O único e deprimente espetáculo é o do crescimento da arrecadação tributária.

Há várias situações em que se justifica a presença extraordinária dos governos, além dos tradicionais “saúde-educação-segurança”. Por exemplo, na superação de desigualdades sociais e regionais. Neste sentido, admite-se a correspondente e necessária arrecadação adicional de tributos, suficientes para o custeio específico.

Mas devemos ter em mente que os impostos devem guardar nexo causal e coerência. Ademais, os impostos não são eternos. A sociedade deve, sempre, repensar os tipos de impostos e adequá-los ao seu tempo, à sua capacidade de pagamento e ao tamanho do estado(União, Estado e Município) que necessita. Hoje, mais do que nunca, a sociedade está no seu limite de resistência físico-psicológica-contributiva.

Uma vez que lhes está reservada a competência de mudar as leis e influir nos rumos dos governos e a definição da pauta político-econômica, é lastimável a inoperância e a omissão dos políticos e seus partidos, auto-proclamados representantes do povo.

Aliás, neste quadro de escravidão tributária e legislativa, abusos e corrupção, a que estamos submetidos, qualquer nação já estaria em situação de desobediência civil e greve geral, entre outras reações populares.

Mas, os aspectos mais surpreendentes são o alastramento e a imensidão do silêncio e da omissão. Não só representantes empresariais e sindicais, mas todos nós, cidadãos, estamos amordaçados por alguma circunstância e inevitabilidade poderosa e constrangedora. Somos, de fato, uma nação? Será covardia cívica?

Infelizmente, somos escravos tributários e legislativos. Escravos sem amor à liberdade e sem capacidade de indignação. Talvez não sejamos merecedores da liberdade!

02 outubro 2007

Palavra de Abraão

Os governantes (os partidos e os políticos) ainda não perceberam que o setor público já não (cor)responde pela sociedade, nem a representa como um todo.

Faz tempo, a população busca e encontra respostas e soluções para seus problemas fora do estado, ainda que aprisionada por um sistema fiscal e tributário injusto e explorador.

Isto significa que os cidadãos já não toleram, nem suportam mais a cobrança absurda, exagerada e desproporcional de tributos, consorciada com a ineficácia (do que resta) da administração pública.

Porém, o esvaziamento do poder público não significa que suas principais atribuições tenham-se esgotado ou que esteja desresponsabilizado.

Para resolver este desencontro entre demanda popular e a não qualidade de oferta de serviços, o setor público carece de urgente reconceituação de competências, necessariamente assentadas sobre novos modelos de eficácia e qualidade.

Para qualquer nível de governo isto implica em adoção da horizontalidade administrativa e a descentralização de estruturas, proporcionando agilidade, economia e eficácia.

Significa a adoção de planos de metas, gestão por resultados, seleção de executivos a partir das competências pessoais e de qualificações técnicas.

Principalmente, impõe-se a adoção de programas de enxugamento de custos e de afastamento formal do estado. Afinal, para que servem inúmeras obrigações, órgãos, departamentos, setores sobrepostos e superados na moderna e global estrutura social e econômica?

Historicamente, a administração pública tem sido utilizada para resolver questões político-partidárias, num esquema de “feudalização” dos órgãos e secretarias.

Os governantes não devem, e não podem, esquecer que o setor público existe e é organizado unicamente para servir a sociedade. Não o contrário!

Nestes tempos de desesperança, violência, desemprego, altos impostos, sucessivos escândalos, líderes fracassados e corrompidos, é bom ficarmos atentos às lições do passado e de outras nações.

A propósito de excesso de estado e tributos, e delírios demagógicos, é oportuno lembrar as célebres palavras de Abraham Lincoln (1809-1865), décimo - sexto presidente dos Estados Unidos. Disse ele:

“Não criarás a prosperidade se desestimulares a poupança. Não fortalecerás os fracos se enfraqueceres os fortes. Não ajudarás o assalariado se arruinares aqueles que o pagam.

Não estimularás a fraternidade humana se alimentares o ódio de classes. Não ajudarás os pobres se eliminares os ricos.

Não poderás criar estabilidade permanente baseada em dinheiro emprestado. Não evitarás dificuldades se gastares mais do que ganhas.

Não fortalecerás a dignidade e o ânimo se subtraíres ao homem a iniciativa e a liberdade. Não poderás ajudar os homens de maneira permanente se fizeres por eles aquilo que eles podem e devem fazer por si próprios”.

Finalizando, o momento exige nossa redobrada atenção. As crises amplificam as vozes dos alquimistas e dos curandeiros de plantão, dos milagreiros oportunistas empenhados em construir suas próprias seitas, dos pregadores de ideologias que a história enterrou.

Enfrentamento e desmascaramento é nossa obrigação!

25 setembro 2007

Síndrome de Adão

Quando a gente acha que já viu tudo em termos de cinismo, deboche e arrogância, sempre surge mais algum fato para agravar a nossa desesperança e descrença generalizada.

O recente congresso político-partidário do PT foi pródigo neste processo de desilusão. Submisso à cúpula partidário-governamental e sem massa crítica, prestou solidariedade aos denunciados mensaleiros e aplaudiu a delirante e inacreditável proclamação do Presidente Lula acerca da vocação ética do partido!

Não satisfeitos, governo e PT fazem ainda uma debochada defesa e absolvição de Renan Calheiros, cinicamente nominada de exemplo de democracia.

A sucessão interminável de fatos escandalosos e pronunciamentos ofensivos à inteligência do povo parece sugerir que há um organizado método para quebrar a espinha dorsal da resistência ética e moral da nação. Uma metódica desconstrução do bom senso e da lógica.

Um dos primeiros a diagnosticar o desvio político do PT e de nosso verborrágico presidente, foi o deputado federal e ex-petista Fernando Gabeira, do Partido Verde (RJ).

Faz algum tempo, em entrevista à Folha de São Paulo, Gabeira falou sobre o despreparo de Lula. "Temos que acabar com o elogio da ignorância. (...) Existe na sociedade brasileira, sobretudo na classe média, um sentimento de culpa em relação aos pobres. Daí a grande adesão à tese de que a classe operária teria um papel messiânico.”

Indagado em que medida a deficiência intelectual de Lula contribuira para insuflar a crise, Gabeira respondeu: “Lula ascendeu ao governo munido de idéias inadequadas à realidade (...) estimulou a ocupação do aparato estatal pelos amigos. Confundiu estado com partido”.

Sincero na autocrítica, Fernando Gabeira está vivendo um processo de desilusão. Basicamente, trata-se da crise da esquerda e das utopias perdidas.

Gabeira afirma: “A esquerda brasileira chegou à decadência mais lentamente, mas segue o mesmo padrão da esquerda mundial. A diferença é que, no Brasil, o Muro de Berlim está caindo com atraso”.

Neste sentido, creio que este seja o maior problema do momento: a falta de uma autocrítica da esquerda. Se por vaidade e ambição isto não é possível aos que estão do exercício do poder, admissível não é a omissão dos demais filiados, militantes e simpatizantes partidários.

Quanto maior e duradouro o estado de perplexidade, igual dimensão adquire a ignorância, a cegueira e a manutenção dos erros.

Aliás, sobre cegueira e ignorância, e sobre a nunca dantes, exagerada, contínua, inesgotável e irritante auto-exaltação de Lula, lembro e acrescento uma frase de Felipe Gonzalez, ex-primeiro-ministro da Espanha. Disse ele:

"Raras vezes as coisas ocorrem pela primeira vez, ainda que assim seja a experiência pessoal de muitas pessoas. Por isso há tantos governos “adãonistas”, que crêem que tudo o que fazem, ou o que lhes passa, é a primeira vez que ocorre. Isso os leva a pensar que estão criando sempre, ex-novo, que estão reinventando a “res publica”, até que caia em cima deles o peso da história, com suas constantes sociais e seu próprio ritmo, com suas idas e vindas inevitáveis".

15 setembro 2007

Traduzindo Renan

Necessariamente, este artigo traduz minha sensação e opinião, influenciadas e tingidas pelas cores de esperanças e experiências pessoais.

Tenho grande gosto pela política, como um dos meios de construção da história e dos destinos de uma nação.

Começo dizendo isto, antes de aprofundar o tema propriamente pensado, para que você o leia e interprete com o devido distanciamento, como qualquer leitura recomenda.

Quero tratar acerca de nossa pátria, de nosso país, de nossas esperanças e de nossas renovadas desilusões.

Recorrentemente, de modo a justificar a estagnação, fala-se muito das origens multiétnicas, da trágica e não superada escravidão negra, das persistentes diferenças regionais e das profundas desigualdades sociais.

Esta realidade multifacetária reflete-se, como espelho, em nosso comportamento dúbio e relutante nas oportunidades de enfrentamento e tentativa de superação das adversidades.

Pior: a imagem refletida funde-se com esse comportamento, e, como sala dos espelhos – aquela de parque de diversões, se reproduz ininterruptamente e cada vez mais disforme.

Consequentemente, já não sabemos mais quem somos, nem nos encontramos ou identificamos racionalmente. Trabalhamos, pensamos, agimos, reagimos, opinamos, criticamos sobre imagens distorcidas.

Assim desfocados, somos vocacionados para a transferência de responsabilidades, ora culpando o passado, ora responsabilizando a má-sorte, e quase sempre a política(os políticos), esta personalidade principal e imagem refletida de todos nós.

A propósito dos políticos e seus mandatos, seu renovado péssimo comportamento, parece, sempre, que descem sobre nós e nossos destinos como que sem pai nem mãe, como que abençoados por votos fantasmas que ninguém sabe de onde surgem. Anjos protetores e sedutores que se transformam em demônios, algozes das esperanças mais nobres.

Face ao meu otimismo político, uma vez um amigo me disse uma frase; os anos passam e passam e ela não me sai da cabeça:

“- Por que tu achas que o Brasil deva dar certo? Por que deveria dar certo? Inúmeras civilizações na história da humanidade não deram certo!"

O diabo é que o sujeito tem razão! Objetivamente, o que estamos fazendo para que o país dê certo? E porque insistimos em achar que deva dar certo ao natural?

Isto não existe. É delírio coletivo, é pura imaginação nossa. É a imagem distorcida tratada como se realidade fosse.

As coisas não acontecem naturalmente ou porque são destinadas. O destino é algo a ser construído, objetiva e racionalmente.

E, então, o que fazer?

Se é que em algum momento saímos da sala dos espelhos, talvez devamos retornar e quebrá-los, eliminando as imagens distorcidas, uma a uma.

O filósofo alemão Ernst Bloch(1885-1977), em seu livro “O Princípio Esperança” disse: “A esperança fraudulenta é uma das maiores malfeitoras da humanidade.”

11 setembro 2007

Vereadores Tutelados

Por convicção ideológica, sou um defensor do Parlamento, quer seja federal, estadual ou municipal.

Mesmo em seus momentos mais irresponsáveis, incompetentes e patéticos, típicos e repetidos senões da política brasileira, ainda assim merece defesa.

Quando a democracia representativa ensaiava seus primeiros passos, os mandatos eram gratuitos. Na melhor das hipóteses, deputados e vereadores eram indenizados das despesas inerentes ao desempenho de suas funções.

A história ensina: a convocação dos representantes dos Estados Gerais, na França, era mal recebida por determinar mais uma despesa aos cidadãos.

Também no século 18, na Inglaterra, pela mesma razão, os mandatos passaram a ser gratuitos.

Entretanto, a gratuidade descaracterizava o sistema representativo, eis que reservava, regra geral, os mandatos às pessoas ricas ou "testas-de-ferro" dos poderosos.

E assim, ainda no próprio século XVIII, firmou-se o princípio de que a "indenização ou ressarcimento" era devida pela nação e paga pelo tesouro público.

Tirante os casos de imoralidade e ilicitude, tenho a convicção de que essas discussões sobre vereadores, assessores, remuneração e diárias, somente adquirem relevância devida à incapacidade/incompetência dos políticos darem conta de suas tarefas essenciais, com qualidade e eficácia, principalmente àquelas relacionadas à fiscalização do Poder Executivo.

Em todos os níveis, e infelizmente, os políticos não têm correspondido às expectativas e necessidades do povo.

No caso específico de Santa Cruz do Sul, poderia-se questionar se a Câmara de Vereadores tem discutido e analisado, qualitativamente, acerca das contas da Prefeitura?

Ou sobre o estado do maquinário e o patrimônio geral? Ou sobre a situação urbana e a qualidade de vida dos cidadãos? Ou sobre as perspectivas sócio-econômicas futuras da municipalidade e da população? Estas e outras questões de igual relevância pública.

Especificamente, sobre este assunto das diárias, considero lamentável a renovada submissão da Câmara de Vereadores à tutela do Ministério Público.

E quanto à ação da zelosa promotoria, me pergunto qual o fato, momento ou limite que haverá de constituir a diferença entre uma manifesta ilegalidade e o insinuante jeitinho, ora submetido e constrangido?

Qual o fato, momento ou limite em que a ação deverá deixar de ser conciliadora e determinar/operar a previsão penal?

Também, face os duvidosos procedimentos da Câmara de Vereadores, como fica o compromisso dos demais vereadores com a publicidade, economicidade, zelo pelo dinheiro público, enfim, todos aqueles comandos e adjetivos constitucionais previstos e jurados na posse?

É obrigação da Câmara a plena divulgação de todos os seus gastos. Preferencialmente, nos mínimos detalhes. Aliás, obrigação de todos os Poderes. Afinal, é dinheiro público.

E do jeito que a coisa anda, com um puxão de orelhas atrás do outro, o que parece nossa Câmara de Vereadores?

04 setembro 2007

A Caminho de Utopia

O alemão Jürgen Habermas (1929), em texto titulado como “A Nova Intransparência – a crise do estado de bem-estar social e o esgotamento das energias utópicas”, pergunta, em certo momento:

“- Dispõe o estado intervencionista de poder bastante, e pode ele trabalhar com eficiência suficiente para domesticar o sistema econômico capitalista no sentido do seu programa?

E será o emprego do poder político o método adequado para alcançar o objetivo substancial de fomento e proteção de formas emancipadas de vida digna do homem?”

Prossegue e responde Habermas: “Trata-se, pois, em primeiro lugar, da questão dos limites da possibilidade de conciliar capitalismo e democracia, e, em segundo lugar, da questão das possibilidades de produzir novas formas de vida com instrumentos burocrático-jurídicos”.

Estas questões permanecem extremamente atuais, haja vista a profunda crise sócio-econômica em que está imersa a maioria das nações.

Marasmo social, desânimo, desemprego, miséria, guerras, são alguns fatos e constatações disseminadas pelo mundo. Há uma crise de valores, crise no sistema de crenças, falta de esperanças. Uma crise por falta de utopias.

Voltando no tempo: face às guerras religiosas e às injustiças decorrentes da apropriação pelos senhores feudais das terras comunitárias das aldeias camponesas, o ministro inglês Thomas Morus(1478-1535), escreveu sobre uma ilha imaginária, denominada Utopia.

Na Utopia, de Morus, não havia propriedade privada, havia liberdade de pensamento e religião, e onde as funções da lei e do estado eram gerar abundância e felicidade.

Utopia, do grego “ou + topos”, significa “lugar nenhum”. Significa um ideal, um sonho para além das misérias e problemas do mundo real, frutos do egoísmo, da ganância e da intolerância humana.

Há outros exemplos da construção utópica do sonho da paz, da justiça, da ordem, da abundância e da confraternização.

A República, de Platão. A sonhada Atlântida. O Império Inca. A Nova Atlântida, de Francis Bacon. Cidade de Sol, do frade Tomaso Campanella. Oceana, de James Harrington. Terre Australe de Gabriel Foigny. O ano de 2440, de Louis Sebastien Mercier. Viagem a Içaria, de Etienne Cabet. A Harmonia, de Charles Fourier. O Manifesto Comunista, de Marx e Engels.

Também existiram os autores anti-utópicos – “dus + topos – lugar defeituoso, ruim”. Os exemplos mais conhecidos são “1984” e “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell, bem como o “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley. São versões da crítica, da ironia, da desconfiança. Partes integrantes e necessárias para a síntese.

Refrescada a memória histórico-literária, finalizo e pergunto: os conflitos e as contradições atuais serão a massa e o tempero para fazer renascer a esperança e a reconstrução das utopias? Ou não haverá mais utopia?

27 agosto 2007

A Nova Classe

Mikhail Bakunin (1814-1876) não era um adivinho, mas um estudioso das estruturas de poder e da natureza da condição humana. Possivelmente, inspirado nos exercícios e abusos de poder de Cromwell (Inglaterra) e da Revolução Francesa.

Bakunin é o principal pensador e propagador do anarquismo. Uma teoria ideológica que almeja criar uma sociedade que funciona sem hierarquias políticas, econômicas e/ou sociais.

Os anarquistas defendem a ausência de governos na suposição de que um sistema social só funciona com a maximização da liberdade individual e da igualdade social.

Bakunin defendia que o esforço revolucionário deveria ser concentrado na destruição das "coisas" (leia-se Estado), e não das "pessoas".

Afirmava que a centralização da autoridade e do Estado criavam um obstáculo ao desenvolvimento das pessoas e das nações.

Rompido com comunistas e socialistas, Bakunin lidera a criação de grupos anarquistas em vários países do mundo, pregando o anti-autoritarismo, o mutualismo e o princípio descentralizador.

Uma de suas proféticas afirmativas, diz: "Assim, (...) chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e por-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana”.

Outro sujeito, Milovan Djilas (1911-1995), ex-ministro, vice-presidente, dissidente e contestador do regime comunista iugoslavo, ao tempo de Josip Broz Tito, dizia em seu livro “A Nova Classe” (1957):

“É muito difícil, talvez impossível, definir os limites da nova classe e identificar seus membros. Pode-se dizer que ela é constituída daqueles que gozam privilégios especiais e favoritismo econômico devido ao monopólio administrativo que detém”.

Conclusão: não há nada de novo no “front” da história! Agora, também nós assistimos a ascensão e as manobras da nova classe. Poder, arrogância, soberba e escândalos.

O politburo petista-governamental desdobra-se em procedimentos de contenção do dique comportamental rompido. Operações de dissimulação e mascaramento das relações noturnas dos companheiros da hora.

São renans, dirceus, waldomiros, delúbios, pereiras, valérios, jeffersons, dudas, jucás, severinos, fundos de pensões, assistencialismos, cartões de crédito corporativo, etc...

São os substantivos e adjetivos novos que desafiam os dicionaristas de plantão. Quando pensamos que descobrimos seu significado/dimensão, surge nova significação/significante. É como querer descobrir a cor do camaleão.

Silêncio e distância agora são os novos papéis do mercado político. Ações/inações nem tão virtuais compradas e silenciadas com dinheiro real.

20 agosto 2007

O Vestido da Verdade

A razão de existir de um sistema político está diretamente relacionada com sua função de melhorar a vida dos cidadãos e zelar pelos objetivos nacionais.

Por isto há eleições livres, diretas e periódicas, de modo a verificar e julgar a realização e a qualidade dos procedimentos da administração pública.

Para que este sistema funcione bem é necessário que o cidadão saiba o que o governo tem feito para cumprir suas obrigações. Do mesmo modo que precisa saber, também, o que o governo e a oposição defendem e objetivam.

O cidadão precisa conseguir analisar essas informações e ações para poder julgar qual sua adequação, viabilização, conseqüência social e oneração financeira.

Porém, há um problema: a maioria da população brasileira não tem capacidade para entender e analisar estas informações. Que dirá acerca das informações que não chegam.

Neste sentido, os representantes políticos – governo e oposição - deveriam se empenhar para superar esta contradição. Entretanto, aproveitam-se para corromper e denegrir o sistema político.

Na última eleição presidencial, por exemplo, a esmola (programa Bolsa Família) distribuída ao povo cumpriu um papel eleitoral fundamental pró-governo.

A influência foi tamanha que os escândalos e os crimes contra a economia, contra o dinheiro público e contra o aparelhamento do Estado, não repercutiram objetiva e eleitoralmente.

Aliás, quem questionasse a distribuição da esmola era rotulado como elitista e inimigo do povo. E quem questionasse a eficácia da gestão pública era rotulado como pró-privatizações e entreguista.

Mesmo que os questionamentos não fossem de ambição eleitoral, mas, sim, de teor econômico, sócio-educativo, jornalístico, ético, moral, etc...

Ultimamente, face às vaias impostas ao Presidente Lula, aqueles que querem e exigem o respeito às leis e às instituições são nominados de golpistas.

Entretanto, o que se percebe é um indiscreto e grosseiro movimento político do PT para reconduzir Lula à presidência, num terceiro mandato consecutivo. E os outros é que são golpistas!

Com a (in)consciência política dos pobres sendo comprada em troca de moedas e a corrupção financiando a perpetuação no poder, consolida-se a absoluta mediocrização do debate político e da ação de governo e estado.

Aliás, como conseqüência já não há mais nem oposição ideológica e institucional. O princípio da cooptação venceu.

Trata-se da desqualificação absoluta da política e da administração pública. Mas há quem goste da socialização da ignorância e da miséria!

Como diz Robert Musil, na obra "O Homem sem Qualidades", “a verdade tem apenas um vestido de cada vez e só um caminho, e está sempre em desvantagem”.



14 agosto 2007

O Paradoxo da Globalização

Faz alguns anos, o diplomata inglês Robert Francis Cooper, guru da política externa inglesa, afirmou que “(...) precisamos reverter aos métodos mais grosseiros de outras épocas – força, ataques preventivos, logro, o que for necessário (...) entre nós respeitamos a lei, mas quando operamos na selva, também temos que usar as leis da selva”.

Voltando no tempo: sabem todos que Tony Blair e George Bush utilizaram-se de argumentos fraudados para garantir a aprovação legislativa e justificativa popular para atacar o Iraque e o Afeganistão.

Rescaldo final: não somente pela tragédia da situação atual no Iraque, como também pelo conjunto do pós colapso das torres gêmeas nova-iorquinas, as bombas em Madrid e as bombas londrinas, a verdade é que ambos – Bush e Blair – ainda não convenceram seus súditos sobre a natureza daquelas operações militares e suas conseqüências presentes e futuras.

Ou então, dito de outro modo, avocada a “filosofia” do supracitado diplomata, a população norte-americana e britânica (os espanhóis mandaram José Maria Aznar para casa! e Blair também já foi!) quer saber mais detalhes e fundamentos sobre como é uma lei e uma ética para os outros. E de como os povos das selvas poderão reagir!

Como a ONU tem-se mostrado incapaz e incompetente para gerenciar os conflitos, e a União Européia é uma incógnita, os Estados Unidos não se constrangem em agir. Auto-titulam-se a “polícia do mundo e guardiões do regime democrático”.

As incursões/ações bélicas preconizadas pelos norte-americanos, a pretexto da vingança ao ataque do Word Trade Center-WTC, foram o prenúncio de (re) definições dos papéis globais, dos novos territórios de dominação/ocupação e da natureza intervencionista.

O acirramento dos conflitos no Oriente Médio interessa à política externa americana, mais precisamente aos seus negócios petrolíferos e armamentistas. Cinicamente, a pretexto da paz.

A humanidade tem inúmeros e maus exemplos sobre “as boas intenções” dos exportadores de revoluções e utopias, de modelos políticos e econômicos, da purificação das raças, etc..., entre outros devaneios que custaram, e continuam custando, a vida de milhões de pessoas.

O papel ocidental de tutela mundial estabelece uma contradição com o processo de globalização! Como conciliar um discurso pretensamente pacifista e universalista, utopicamente distribuidor de progresso e renda, com as práticas intervencionistas de natureza econômica e militar, de evidentes interesses no controle dos recursos naturais e tutela de países periféricos, a exemplo do Oriente Médio?

A historiadora norte-americana Bárbara Tuchman (1912-1989), premiada, consagrada e reconhecida mundialmente, escreveu, em sua obra “The March of Folly – from Troy to Vietnam” (1984), entre nós conhecida como “A Marcha da Insensatez – de Tróia ao Vietnã”, na edição brasileira José Olympio (1989), que “o paradoxo da condição humana é a sistemática procura – pelos governos – de políticas contrárias aos seus próprios interesses e a não consideração da existência de uma alternativa viável.”.

São páginas que servem de alerta e inspiração para toda humanidade, e aos governantes, principalmente, numa época em que a marcha da insensatez parece acelerada.

30 julho 2007

A Crise e a (des)Função do Trabalho

(para uma reflexão crítica das redes de proteção social)

Histórica, psicológica e socialmente, o trabalho é reconhecido como um elemento fundamental no processo de afirmação do ser humano.

Sua relação com a vida e a sobrevivência vai muito além da questão da produção de bens e renda. A ocupação produtiva do indivíduo está diretamente relacionada à idéia de dar um sentido à própria existência.

Neste aspecto, vivemos uma época de profunda contradição e depressão existencial, haja vista as alterações dos processos produtivos, das relações de comércio interno e externo, com graves e negativas repercussões no quadro das atividades laborais e de emprego.

Em contrapartida, crescem as redes de proteção social, estatais e comunitárias. Governos e entidades assistenciais criam e apresentam os diversos programas de ajuda.

As palavras-chave são bolsa, vale, programa, etc..., a exemplo da bolsa-alimentação, o vale-transporte, o vale-gás, a bolsa-escola, programa de renda mínima, merenda e transporte escolar, salário-família, entre outros, em todas as esferas da organização social e estatal.

São formas indiretas de proteção e aumento da renda familiar. Milhares de famílias passam a viver e depender das redes de proteção social.

O que para uns pode parecer como uma espécie de socialização forçada de benefícios, distribuição de renda na ótica dos otimistas governamentais, no pensar de outros parece um inquietante processo de “educação" para o ócio, ou deseducação para o trabalho.

Ressalvado tratar-se de um ócio forçado (questão para outra discussão!), todos estes benefícios permitem às pessoas (sobre) viverem. Sem qualidade de vida. Precária e resignadamente. E pior, por extensão, sem ver no trabalho uma necessidade.

As vítimas desse processo de exclusão e inutilização humana são, obviamente, os menos formal e profissionalmente educados e preparados para o trabalho.

Este despreparo é gravíssimo por que impede/incapacita a mobilização destas parcelas da população para uma reação ativa e positiva.

Desesperançosamente, estas populações não têm utilidade para o sistema capitalista, nem para os defensores de outras vias ideológicas.

Para uns não servem por que fora e inaptos no processo de criação de riquezas, e para outros por que incapazes de autocrítica e construção de um projeto social reformador ou revolucionário.

Mais grave: em verdade, servem como massas de manobra político-eleitoral, descompromissadas com quaisquer objetivos de um ou outro sistema político-econômico.

24 julho 2007

Anatomia do Erro

Foi uma semana catastrófica para toda a nação brasileira. Nada mais há para se dizer. Ou melhor, tudo mais há para se acrescentar. Porém, faltam verbos, substantivos e adjetivos em língua portuguesa para a descrição de todos os acontecimentos.

Mas não são só os fatos que se sucedem e que conspiram amarga e sombriamente sobre nosso presente/futuro que carecem de conceituações. Também faltam palavras para qualificar os gestos, as ações e as interpretações que se sucedem e que tentam explicar, justificar, amenizar e contemporizar os mesmos fatos.

Estes atos sucedâneos incorporam-se aos fatos originais e somados transcendem o conjunto anárquico e kafkiano que nos assombra.

Nenhum governo é infalível. Nenhuma pessoa é perfeita. E nem mesmo espera-se a solução de todos os problemas de parte de uma só pessoa, ou de um só governo. Objetivamente, espera-se um mínimo de coerência, dignidade, autocrítica e vergonha.

Hoje não vou me referir ao presidente Lula e seus aloprados amestrados (ou já me referi?), empenhados em bater todos os recordes em falas impróprias e gafes, contagiados pelas medalhas do Pan.

Proponho, pois, uma parada reflexiva sobre a natureza e anatomia do erro. Cataloguei algumas frases célebres. Ou lições, como quiserem.

“Errar é humano”, já dizia Sêneca (filósofo romano, 4ac-65dc), carimbando seu nome nas enciclopédias. Explica, mas não justifica uma das mais marcantes características da pessoa: não aprender com o próprio erro.

O oráculo chinês Confúcio (551ac-479ac) afirmou que “um homem que comete um erro e não o corrige, está cometendo outro erro.”.

Mais ou menos parecido com o que disse Cícero, filósofo romano (106ac-43ac): “Qualquer pessoa pode errar, mas só os tolos persistem no erro.”.

Então, está combinado. Podemos errar, mas repetir o erro é uma tolice. Mas, e ao esconder, ou negar o erro, como ficamos?

Um anônimo ditado já dizia: “Muita gente aprenderia com seus erros se não estivesse tão ocupada negando que os cometeu.”.

Mas, e sobre a segunda chance, a oportunidade de não fazer, deixar de errar, corrigir, ou fazer de modo diferente?

Juscelino Kubitschek, presidente do Brasil (1902-1976), disse: “Volto atrás, sim. Com o erro não há compromisso”.

Já o grande ator italiano Vitório Gassman (1922-2000) queria o direito ao treino: “O único erro de Deus foi não ter dado duas vidas ao ser humano: uma para ensaiar, outra para atuar.”.

Mas quem paga pelos erros?

“Os erros têm um custo e alguém deve pagar por eles. O momento certo de se corrigir um erro é antes de cometê-lo. As causas dos erros são: primeiro, eu não sabia; segundo, não pensei; terceiro não me importei!”, palavras do jurista inglês Henry Buckley (1845-1935), com certeza, influenciado pelos julgamentos judiciais.

Mas o escritor norte-americano Edward Dahlberg (1900-1977), estava preocupado com a diferença entre erros e acertos: “Quem neste mundo tem crédito suficiente para pagar por seus erros?”.

Resumindo didaticamente e parafraseando um ditado anônimo: “Aprendamos com os erros dos outros. Não viveremos mesmo o tempo suficiente para cometer todos os erros possíveis.”.

Antes de encerrar, outro assunto (ou o mesmo assunto?!): não consigo pensar em outra coisa senão naquela cerimônia de entrega da Medalha Mérito Santos-Dummont. Dia 20 de julho, três dias depois do acidente em Congonhas. Prédio ainda em chamas, corpos em resgate, famílias em pranto e luto.

Quem são essas pessoas que participaram, entregaram e receberam a Medalha do Mérito? O que fazem, o que pensam, como são suas famílias, seus filhos, seus amigos, seus sentimentos, seus conceitos de dignidade, vergonha, honra, mérito, solidariedade e oportunidade? O que lhes representa uma medalha no peito ou um ato de outorga?

Com o perdão do meu juízo insinuado e antecipado, mas eu acho que ali, naquela cerimônia, naquele momento especial, pode estar a explicação central, filosófica, ética e moral acerca do que se passa com todos nós, povo e autoridades!

Para mim, mais difícil do que encontrar as palavras para descrever aquela cerimônia, é identificar a natureza dos sentimentos humanos ali presentes!

19 julho 2007

A Tragédia Anunciada e a Nudez do Rei

Nada mais trágico, nada mais arrasador do que a morte por razões não naturais, à conta da participação e/ou omissão humana.

Trata-se, sempre, da interrupção e anulação de uma vida, de uma perspectiva absolutamente particular e não renovável de uma existência e de um ilimitado espírito.

Também, trata-se de mais um parágrafo com variações sobre um mesmo tema nacional: incompetência e negligência.

Nosso dicionarista Aurélio informa que “competência é a qualidade de quem é capaz de fazer determinada coisa com capacidade, habilidade, aptidão, idoneidade”.

Por conseqüência, incompetência é a característica de incapacidade, inabilidade, inaptidão e não idoneidade na concretização de determinada tarefa. Deduzo que a negligência é sua irmã siamesa.

Objetivamente, a incompetência e a negligência são frutos de nossa aversão ao método. E por quê? Porque toda previsibilidade é monótona, é repetitiva, é cansativa.

De praxe, reagimos irônica e jocosamente aos profissionais porque sua competência e concentração é gélida e inumana, não combinando com nossa alegria e espontaneidade. Mas de que alegria e espontaneidade mesmo é que estamos falando?

Tristemente, nada mais monótono, repetitivo e cansativo do que a sucessão de tragédias.

Também somos incompetentes e negligentes ao tolerar lideranças e governantes que desperdiçam dinheiro público e privado em obras inacabadas, mal-localizadas e não funcionais.

Somos negligentes com governantes que promovem o loteamento dos cargos públicos com pessoas não habilitadas. Corruptíveis e corruptores!

Somos tolerantes com os governantes que repetem-se em auto-elogios, potencializados pelos bajuladores e pelos cegos de boa-vontade.

Somos tolerantes com nosso Presidente, que baseado em sua inculta e indomesticável soberba, simbolizada pelo já cansativo e irritante refrão “como nunca dantes”, supõe que durante sua dinastia inaugurou-se uma nova era.

Infelizmente, os desejos, sonhos e delírios presidenciais não têm força para superar a realidade do dia-a-dia. A realidade é absolutamente adversa.

Bastaria sair do Palácio e ir às ruas para ver o exército de desempregados, de biscateiros, de catadores de papel, de distintas senhoras donas-de-casa vendendo quitutes domésticos, de velhos e velhas aposentadas vendendo bilhetes de loteria e anunciando compradores de ouro.

Bastaria prestar atenção nas declarações e ações cada vez mais desencontradas e patéticas de seus ministros e assessores.

Infelizmente, o rei está cego. E toda forma de soberba é essencialmente uma forma de cegueira.

Entre a multidão, disse a criança: “O rei está nu!”

16 julho 2007

Condomínio Edifício Brasil

A contínua incapacidade do Estado em realizar melhorias na oferta de bens e serviços públicos, principalmente nas áreas de saúde, educação e segurança, tem aumentado o nível de repúdio e queixas da sociedade em relação ao Parlamento e ao Executivo.

Ultimamente, face o caos na área de segurança pública e à liberalidade jurídico-judicial-policial, nem mesmo o Poder Judiciário escapa às críticas.

Mantido em fogo alto e constante, o caótico quadro social é um prato indigesto e temperado com a crescente concentração e elevação tributária e a inevitável corrupção que o gigantismo estatal proporciona. Uma receita explosiva!

Objetivamente, trata-se da constatação de que a sociedade está desamparada e abandonada à própria sorte e às eventuais soluções tópicas e passageiras.

O comportamento e a omissão dos políticos - parlamentares e executivos, depositários formais e legais da esperança popular, já extrapolou o limite da tolerância.

O mais irritante é que fazem um jogo de cena. Dizem-se favoráveis a investimentos nas áreas de saúde, educação e segurança, bem como à redução da carga tributária. Mas nada acontece!

Simplesmente, trata-se de um discurso para “manutenção de imagem pessoal”, tipo “todos defendem, logo preciso defender também”. Mas não há repercussões e soluções objetivas, nem comprometimentos sérios com estas transformações.

Esta não solução e inércia estão relacionados ao permanente empenho de parlamentares em “ficar de bem com o Governo”. Visando à obtenção e liberação de verbas e favores oficiais, não lhes é “conveniente e oportuno” causar constrangimentos ao governo.

Importa relacionar também como elemento que contribui para o estado de inércia e omissão, o fato de que estes assuntos (saúde-educação-segurança) não têm apelo eleitoral, embora devessem ter!. São interesses coletivos.

Atualmente, o que determina a hegemonia política e eleitoral são os assuntos pontuais e setoriais, demandas localizadas. Mas a retórica continua generalista e oportunista.

Enquanto isto se sucedem os abusos no setor público. Gastos incontroláveis, estagiários e serviços terceirizados às centenas, propaganda e publicidade de monopólios estatais e atividades-meio, autopromoção e remuneração abusiva, além de ressarcimentos de despesas que ofendem a inteligência e economia popular.

Assim, combinada a natureza da omissão e as razões de conveniência pessoal dos políticos, resulta que se encontra escravizada a sociedade por uma ditadura parlamentar, em todos os níveis da organização do estado brasileiro, seja no âmbito dos Municípios, dos Estados e da União.

Qualquer expectativa de mudanças sérias e estruturais, em todos os níveis, somente será possível com a participação ativa da sociedade civil. Como?

Talvez através de protestos, boicotes, denúncias, “panelaços”, desobediência civil. Uma sociedade ativa sempre encontrará meios de concretizar sua indignação. Às vezes, até uma vaia faz a diferença, não é, Presidente Lula?

Um bom começo seria a fixação de faixas salariais para vereadores e deputados estaduais, a extinção do Senado Federal e a redução expressiva do número de Deputados da Câmara Federal e das Assembléias Legislativas. Bem como a revisão dos privilégios, chamados direitos adquiridos, principalmente àqueles relacionados às aposentadorias e pensões.

Afinal, os moradores do Edifício Brasil podem e devem adequar suas expectativas condominiais à sua realidade e capacidade contributiva, o que pode significar o adiamento/eliminação de obras não essenciais, o corte de serviços terceirizados, a demissão/substituição do zelador e demais funcionários, a redução dos benefícios do síndico, a opção por soluções gerais mais econômicas. Ou os condôminos não podem?

10 julho 2007

A Bomba-Relógio

Somos os campeões mundiais em número de homicídios. 45 mil pessoas perdem a vida a cada ano. Metade dos assassinatos é cometida por cidadãos sem antecedentes. Embora tenhamos apenas 3% da população mundial, realizamos 13% dos homicídios.

Uma síntese e conseqüência trágica da combinação de problemas e desigualdades econômicas e sociais. Desintegração familiar, desigualdade de renda e trabalho, desemprego, urbanização desordenada, narcotráfico. Crimes em larga escala. Regra geral: a impunidade.

A maioria das cidades brasileiras tem em comum a desigualdade crescente. As evidências principais são a segregação sócio-espacial e a concentração da riqueza e da renda.

A segregação sócio-espacial afeta a maioria da população e é percebida nas questões relativas à moradia, ao saneamento, ao emprego e ao transporte público.

Os números não mentem. Dez milhões de famílias moram em áreas sem infra-estrutura urbana e de saneamento. Oitenta e três milhões de pessoas não são atendidos com pelo menos um destes serviços públicos: água, esgoto, coleta de lixo e energia elétrica.

Este número tem conexão com os números relativos aos jovens. Trinta milhões têm entre 15 e 24 anos e vivem no meio urbano. Dezessete milhões não estudam.

A desigualdade de riqueza e renda atinge a maioria dos jovens. Quatro milhões de jovens vivem em famílias com renda per capita de até ¼ (um quarto) do salário mínimo. Metade dos desempregados brasileiros são estes jovens.

A decorrência real e prática deste conjunto estatístico, de parte do jovem, é uma sensação de impotência, uma descrença na família e na sociedade.

Descrença no esforço coletivo, na comunidade e nas autoridades, desrespeito às normas e às regras de convivência. Todos sintomas visíveis de um monstrengo em gestação.

A violência nos grandes centros urbanos tem os jovens como maioria das vítimas e/ou agressores. Diariamente, o noticiário policial informa vários casos de envolvimento de jovens em crimes, principalmente de ataques à pessoas, constando casos de espancamentos seguidos de morte das vítimas.

Fica evidenciada que toda esta violência é, basicamente, conseqüência de uma grave crise de valores e uma absoluta falta de perspectivas pessoais.

Trata-se de uma geração que nasceu e cresceu sob o signo da violência. Sem alternativas e sem medo, e não encontrando soluções para seus problemas, inventa soluções radicais e anti-sociais.

Relógio ou não, toda bomba tem um tempo, tem um dispositivo que permite seu desligamento. Porém, desconfio que esta tenha os dispositivos emperrados.

Aliás, qual a distância segura de uma bomba? Pelas estatísticas policiais, pelos condomínios fechados, as cercas aramadas e elétricas, a quantidade de guardas e seguranças particulares, suponho que a distância já não mais exista!

02 julho 2007

PAN!!!...No Seu Bolso!

Toda a semana eu me prometo escrever um artigo mais otimista, mais positivo. Preferencialmente, sem reclamar do governo, até porque, segundo o presidente, este é o melhor desde a proclamação da república brasileira.

Mesmo ouvindo esta bobagem, juntamente com as periódicas asneiras oficiais, ainda assim eu me esforço para manter aquele desejo. Mas não dá. Não há jeito. É uma sucessão de abusos e deboches.

Vamos, pois, para um assunto até agora pouco comentado e esclarecido do ponto de vista financeiro e do gasto público: os Jogos Pan-americanos (anote: será o “senhor” assunto logo após os jogos).

Há cinco anos, a União, o Estado e o município do Rio de Janeiro afirmaram que gastariam R$ 409 milhões (atualizados) na organização do Pan. Hoje, a conta alcança R$3,2 bilhões. Um custo 682% maior que o previsto em 2002.

O dinheiro desembolsado pelo governo federal, inicialmente previsto em R$ 138 milhões, chega a R$ 1,5 bilhão. Um aumento de 10 vezes (986%).

A participação da Prefeitura do Rio saltou de R$239 milhões para R$1,2 bilhão (404% a mais). Relativa e percentualmente, o maior estouro será do Estado do Rio: de R$32 milhões para R$ 500 milhões (1.513%).

O Pan do Rio custará 12 vezes mais que qualquer outra edição dos jogos. "Somados os quatro últimos Pan’s não dão o que está dando esse. É triste (...) a gente sabia que isso ia acontecer”, afirmou Juca Kfouri, comentarista esportivo.

Entre os absurdos está a construção de um novo estádio - o João Havelange, conhecido como Engenhão. Em janeiro de 2003, o Diário Oficial do Município do Rio de Janeiro informou que o estádio custaria R$60 milhões (R$75 milhões, atualizados). O custo já está em R$380 milhões.

Temendo um eventual fracasso do Pan - negativo para a imagem brasileira, o governo federal virou refém dos organizadores e do "fato consumado".

Apesar dos pesares, os governos defendem que os investimentos públicos na competição se justificam pelos benefícios à cidade do Rio de Janeiro.

Historicamente, os investimentos realizados pelas cidades-sedes de grandes eventos esportivos revertem em favor da população, seja através de utilização das estruturas remanescentes, de melhorias de infra-estrutura urbana, ou de incremento da qualidade de vida e dos negócios.

Porém, e infelizmente, no caso do Rio, as melhorias ambientais e nos transportes, prometidas como legado, ficaram no papel.

Recordando: da Barra da Tijuca sairia uma nova linha de barca até o centro, uma linha de metrô e um bonde até o aeroporto. A via expressa que liga o bairro à zona sul seria duplicada. Cinco lagoas da região seriam despoluídas. Nada feito! Balela!

Menos mal que o Tribunal de Contas da União (TCU) já está de olho. Em relatório, aponta algumas razões – criminosas, acrescento eu – para o superdimensionamento e atrasos nas obras e o aumento desmedido dos gastos.

Segundo o TCU, já são 2 bilhões de gastos da União. Não há um plano de metas. Muitos projetos nem sequer tinham prazo para seu término. Conclusão: devido à sucessão de atrasos e imprevistos, os serviços passaram a ser contratados às pressas, sem licitação. Esse filme nos já vimos!

Gente, estamos falando de muito, muito dinheiro. A base de R$40.000,00 a unidade, significa 80.000 automóveis zero dos bons. Ou 80.000 casas populares das boas! 80.000 casas!

Lula defendeu os gastos públicos com a competição: "Temos que defender o nome do país, ou seja, se algum deles [Estado ou Município] tiver algum problema, o governo federal tem que entrar [com dinheiro] porque quando foram abertos os Jogos o que vai ficar é a imagem do Brasil".

Mas a “pérola” maior na fala presidencial foi: “o Tribunal de Contas pode investigar depois se houve excessos!”(grifo meu).

Ah, bom! Menos mal. Vai descobrir todos os abusos, identificar os responsáveis e recuperar o dinheiro desviado. Ainda bem!

26 junho 2007

Coração de Estudante

“Quero falar de uma coisa, adivinha onde ela anda? Deve estar dentro do peito ou caminha pelo ar, pode estar aqui do lado, bem mais perto que pensamos, a folha da juventude, é o nome certo desse amor”.
Coração de Estudante, de Milton Nascimento e Wagner Tiso

Inexorável, o tempo rouba a juventude. Há quem diga que floresce um novo tempo, cujos passos e gestos lentos, longe de significar fraqueza, revelariam sabedoria.

Mas, às vezes, o tempo também rouba a alma. Por isto, na lembrança tantos gestos e desejos de força, de vontade, de rebeldia, de mudança.

O conformismo invade corpos e mentes, derrubando ícones. Cala a alma, cega os olhos e sufoca a indignação.

Mas resta sempre a esperança e a certeza na geração seguinte. As vozes do coração.

Todavia, emerge, forte e triste, a constatação do envelhecimento precoce da juventude. Senão, onde estão os estudantes secundaristas e universitários e suas bandeiras? Perdidos no túnel do tempo?

Não bastaria o exemplo do jovem chinês à frente do tanque de guerra, desafiando com o próprio corpo não apenas a máquina, mas um modelo de poder?

Ou dos brasileiros que foram às ruas pelo “Estado de Direito”, contra a ditadura militar, pela “anistia ampla, geral e irrestrita”, pelas “Diretas Já”, ou, mais recentemente, pelo “Fora Collor”?

As perguntas que o tempo nos faz em todas as esquinas do próprio tempo são desafios apenas respondidos pelo coração.

Força silenciosa, que mesmo sem saber, às vezes, o sentido da razão, diz, intuitivamente, que aquela é a hora e aquele é o caminho a seguir na encruzilhada das gerações.

Não cabe alegar crise de valores, falta de oportunidades, ausência de bandeiras. Trata-se de não aceitar o envelhecimento precoce do espírito, porque, naturalmente, contrário às ordens do coração!

Poderia falar de família, de drogas, de desemprego, de política e corrupção, e recolher em cada assunto a indignação de um tempo que massacra e que descaracteriza o sentido da vida e da idéia de juventude.

Ou perguntar, objetivamente, como está a educação e a escola pública? E a cada vez mais cara universidade, instrumento de formação profissional, cívica e civilizatória, que não tem formado cidadãos, e que vive e convive às voltas com “mestres e doutores no próprio umbigo”?

E as questões acadêmicas cotidianas como crédito educativo, conteúdo curricular, provão, transporte coletivo, estágio, mercado de trabalho, especialização, emprego e trabalho?

Mas há quem diga que não há mais bandeiras de luta! Ou supõem como bandeira de luta as patéticas ocupações de reitorias, dissimulando suas inegáveis identidades partidárias e jurássicas ideologias, empenhados em “proteger” os novos donos do poder?

Final e tristemente, há também quem diga que a juventude ”acabou”. Acorda, coração de estudante! Acorda!

16 junho 2007

Ilusão de Ótica e de Ação

A ascensão e queda das expectativas políticas nutridas pelos militantes partidários e pelo povo, bem como a histórica e repetida evaporação das esperanças depositadas nas urnas, parecem ser uma sina, uma danação, uma praga brasileira.

Regra geral, uma vez no poder, os partidos e seus representantes acomodam-se de tal modo que esquecem o conjunto das promessas e das responsabilidades públicas.

Por exemplo, o PT - a frustração do momento de eleitores e partidários, confirma que não tinha um projeto de governo. Apenas um projeto de poder. Quer dizer, bom para ele, pior para o povo.

Estes fenômenos de transformação da essência partidária e ideológica não são novos. A Arena, por exemplo, de um projeto de transformação da política nacional, redundou num monstrengo. O PMDB, que sucedera a Arena, igualmente migrou de uma esperança e unanimidade para uma decepção unânime nacional.

Entretanto, em comum e em qualquer época, os partidos têm alguns filiados e simpatizantes que supõem que ainda resta uma possibilidade de retomada do caminho e da vocação original.

Trata-se da mudança/revolução por dentro. Embora possa significar uma esperança para partidários e eleitores, trata-se, infelizmente, de uma ilusão de ótica e ação, de um desejo que não resiste à realidade.

As estruturas partidárias são rígidas e extremamente sensíveis à influência/benefícios/regalias do poder. Não são sensíveis aos sonhos e idealismos.

Na verdade, sempre reinou um clima de salve-se quem puder, isto é, quem está dentro, está dentro e pode se dar bem. Basta não incomodar.

Em suma, sucedem-se compromissos e trajetórias históricas e populares comprometidas pela ambição, soberba e arrogância dos carreiristas.

Começa-se com pequenas concessões e acaba-se em grandes escândalos. E belas páginas da história de um partido vão para o ralo da história maior.

A lastimar neste processo de pauperização da prática política, é que, regra geral, muitos inocentes tombam no caminho, implacavelmente. Vítimas da retórica e da demagogia!

Mas tombam também pelo caminho as esperanças, cada vez mais escassas, e crescem as descrenças e as desconfianças nas possibilidades de superação de nossas contradições sociais através deste processo político-eleitoral.

Em verdade, neste vai-vem da política, aprendemos a sentir o amargo sabor da verdade e da realidade. Á medida que a utopia e a paixão dão lugar à compreensão acerca das fraquezas humanas e das vocações autoritárias dos grupelhos políticos, aprendemos a valorizar os instrumentos básicos de um Estado Democrático de Direito.

O que não significa que devamos abafar ou sepultar os nobres sentimentos e esperanças que alimentamos em nossas consciências, sobretudo em torno de um senso de justiça social, nem diminuir nosso empenho e participação comunitária.

A aprender, é que na política, como no amor, por conta de nossa idealização, demoramos em ver os defeitos de nosso objeto amoroso.