18 maio 2009

Crise de Pertencimento (reflexos dos escândalos)

Crise de Pertencimento
(reflexos dos escândalos)

Historicamente, por causa das guerras, invasões e pestes, os povos desenvolveram a necessidade de organização social, a exemplo de fortificações, vilas e cidades.
Essa convivência determinou o surgimento de um sistema de idéias e valores da vida em sociedade, suas possibilidades, expectativas e o papel social do indivíduo.
Segundo o sociólogo alemão Max Weber (1864-1920), seria uma “comunidade política”, voltada para a ação, partilhando valores, costumes, uma memória comum, criando uma “comunidade de sentido”, um “sentimento de pertencimento”.
Pertencimento, ou o sentimento de pertencimento, pode ser entendido como uma idéia ou crença que une as pessoas e expresso por símbolos e valores sociais, morais, estéticos, religiosos, políticos, dentre outros.
Sentir-se pertencente a um lugar, sentir que tal lugar também nos pertence, sentir que vale a pena interferir na rotina e nos seus rumos.
É um sentimento muito parecido com a identificação que estabelecemos com nosso clube social, nosso colégio, com o time de futebol pelo qual torcemos, a terra onde nascemos, nosso bairro.
Daí também nasce a expressão “bairrismo”. Orgulhosa e positivamente falando, é o que se manifesta quando alguém pergunta sobre nosso estado, nossa cidade, nossa vila, nosso povo.
Não é a toa que as comunidades têm suas festas típicas, seus monumentos, atrações artísticas e culturais, tradicionais empresas, homens públicos e artistas de renome.
Ou, então, elogiosas e referenciais características de desenvolvimento sócio-econômico, como progresso, modernidade, urbanidade, limpeza, etc...
Bem, isso tudo é coisa do passado. Em tempos de empobrecimento e desemprego, popularização de (maus) costumes, razões sociais e culturais em desvalorização, todos valores, práticas e comportamentos estão em xeque e estado de choque.
Mais otimista, alguém dirá: mas restam as leis que regem a sociedade, que fundam, fixam e norteiam nossas ações e a vida em sociedade.
Nesse cenário ininterrupto de deboche, fingimento e impunidade, mesmo as leis que restam são como idealizações que não resistem a realidade.
Então, resumindo, sobre valores sociais, costumes comunitários e leis, sempre haverá aquele que pensa e age diversamente, indiferente às construções sociais do passado, e que, deliberadamente ou não, não compartilha dos mesmos costumes!
Pergunto: sobreviverá o ideal do pertencimento? A considerar os históricos valores sociais e suas motivações inaugurais e a degradação em curso, ainda há motivos para ufanismo coletivo e comunitário?

12 maio 2009

DALITS

A novela global “Caminho das Índias” tem proporcionado à maioria de nosso inculto e mal-informado povo o conhecimento da realidade social da Índia, o gigante país asiático.
Muitos indianos radicados no Brasil têm reclamado e dito que o retratado pela novela não corresponde à realidade atual.
É verdade que desde Ghandi há um imenso esforço legal e constitucional para a superação dessas diferenças. Mas os costumes resistem influenciados pela conservadoríssima religião hindu.
Observando os intocáveis dalits, com suas vidas em paralelo aos demais cidadãos, considerados e tratados como não parte do sistema social, pensei em milhões de brasileiros. As castas também existem por aqui?
As crescentes e permanentes dificuldades que nosso povo tem enfrentado, haja vista o evidente e continuado empobrecimento geral, têm gerado e lançado às ruas um exército de miseráveis.
São viradores de lixo, catadores de papel, guardadores de carro e moradores de rua (sem-teto). Uma multidão de sem-nada!
Tirante a estética da pobreza, que enriquece poucos e que a mídia explora muito bem, notadamente o cinema e a televisão, resta a verdade nua e crua das rotinas de sobrevivência.
São várias, variadas e notórias situações de exclusão absoluta, degradação humana, alcoolismo, drogadição, loucura, perda de identidade, entre outras anomalias comportamentais e existenciais.
Miséria, fome, fracasso, sofrimento, é o que têm em comum estes personagens de nosso cotidiano. Eu disse nosso cotidiano?! Errado!
Eles são invisíveis. Ninguém os vê ninguém os percebe. Apesar de estarem aqui, ali e acolá, é como se não existissem. Pois esta é uma resolução de nossa sociedade. Ignora-se!
Gestos isolados como a mão que alcança uns trocados, uma roupa usada, um cigarro pela metade, não tornam seus corpos visíveis por inteiro; talvez apenas suas mãos estendidas.
Seus rostos e seus espíritos continuam nas trevas às quais os relegamos. Nem ousamos olhar em seus olhos porque é insuportável!
Olhar fixamente em seus olhos é como uma fotografia que nos acompanhará para sempre. Incomodativa e indeletável!
São homens, mulheres e crianças que caminham à margem de nossos belos e floridos jardins de nossas casas e imponentes condomínios.
São com eles que cruzamos a caminho do trabalho, à saída para as baladas noturnas, à porta e escadarias de nossas soberbas e centenárias igrejas e palácios de governo.
São os nossos dalits!

04 maio 2009

A Turma do "Deixa-Disso"

Todos os dias somos confrontados com casos de corrupção, fraudes, apropriação indébita, usurpação de funções, enfim, escândalos de todas as naturezas e origens.
No centro de todos os casos algumas constatações e óbvias coincidências: excesso de estado, ausência de controles, não transparência e impunidade.
São variáveis que convergem para um mesmo fim: é um bom negócio e de baixo risco “assaltar” os cofres públicos e privados!
Apesar de todas as vozes de revolta e indignação, se trata de um assunto/debate que inevitavelmente nos leva a outras desagradáveis constatações e conclusões.
Entre tais observações concorrem inúmeras notícias e episódios diários que relacionam a conduta do brasileiro ao famoso estigma de “querer levar vantagem em tudo”.
Menor valor e/ou conseqüência social não são razões para inibir a tentação e o oportunismo. Apenas confirmam uma índole suspeita. Uma incompatibilidade e não vocação comunitária. Uma carência de perspectiva ética balizadora.
E exemplos não faltam. Fraudes relacionadas à distribuição e utilização do Programa Bolsa Família, às pensões do INSS, às licenças médicas fraudadas, entre outros.
A maioria destas fraudes é praticada por autoridades, representantes político-partidários e funcionários públicos, quase sempre em conluio com pessoas do povo e da própria comunidade.
E por mais que algumas pessoas “coloquem a boca no trombone”, são pecados social e localmente assimiláveis. Graças a “Turma do Deixa-Disso”.
A regra-geral da “Turma do Deixa-Disso” é uma conduta muito adotada pelos especialistas em sobrevivência política e social em pequenas e médias cidades.
Qual seja: nunca critique, sempre elogie; nunca seja contra, seja sempre a favor; nunca afirme com convicção, apenas cogite. Acusar, cobrar, condenar? Jamais!
Afinal, não passam rápido ao “esquecimento” escandalosas viagens e diárias de vereador, contas e prestações de contas mal esclarecidas de festas da alegria, e, mais recentemente, generosa e bem-paga compra de terras em período pós-eleitoral?
A ironia no descobrir e desvendar dos pequenos e grandes “negócios de ocasião” é que quase sempre é por causa de alguém que não foi contemplado ou lembrado na hora da repartição do butim.
Alguém lembrou: e a honra, a dignidade, a verdade e a justiça?
Mas quem, hoje, dá “bola” para estes ditos, apregoados e teóricos valores pessoais, sociais e institucionais?
Afinal de contas, no frigir dos ovos existenciais todos somos dotados de boa índole e das melhores intenções. Ah, e desvios de conduta são inerentes à condição humana!
Mas resta uma perturbadora indagação: será que é possível que tenhamos e suportemos vários níveis de tolerância ética? Diferentes níveis de concessões políticas e sociais? Alternativos níveis de delinqüência e corrupção toleráveis? E que todas estas concessões não têm nada a ver conosco e com a atual situação da nação?

24 abril 2009

Êxtase Ético

Mais um escândalo nacional. Agora é o caso das passagens aéreas utilizadas pelos deputados, seus familiares e amigos. Tudo à custa dos cofres públicos.
Com certeza, não será o último no rosário de sofrimentos e abusos a que o povo é submetido por seus falsos líderes e infiéis depositários da esperança.
O que mais dói não é o dinheiro surrupiado. O pior da safadeza é o cinismo com que “elles” vêm a público explicar e justificar os indevidos gastos.
Fingem ignorar o que todos sabemos. Que qualquer pessoa, mesmo uma criança, sabe o que é certo e o que é errado, o que é justo e o que é injusto.
Ano após ano, escândalo após escândalo, tudo o que está acontecendo, tem uma vertente principal. É a certeza da não punição. Somos os campeões mundiais da impunidade.
Mas o prejuízo maior não é a corrupção e a safadeza. O prejuízo maior da nação é a quebra de confiança, um alicerce fundamental no ideal republicano.
Se perdemos a compreensão, a convicção, a clareza em torno das razões de nossa convivência e criação de uma nação, significa que estamos a perigo.
Estamos perdendo a confiança que deveríamos ter uns nos outros. E a falta de confiança é um grave precedente que destrói a unidade social e nacional.
A sucessão de fatos desagradáveis e escândalos também revelam a natureza da crise da democracia brasileira. Nossa democracia é uma farsa e se resume a um mecanismo eleitoral.
Em todos os níveis (federal, estadual e municipal), a omissão do parlamento, a não discussão, a ausência de conflitos ideológicos, o “concordismo partidário” que a todos alcança sob o falso argumento dos consensos positivos, são o câncer da atual política.
Outra conseqüência dessa omissão (e doença!) é a judicialização da política. A partidarização do judiciário. Os conflitos de natureza política e ideológica são levados aos fóruns judiciários.
O vergonhoso bate-boca de ontem no Supremo Tribunal Federal - e o nível de tensão - é apenas uma das faces e conseqüências da crise de representatividade político-partidária.
Relembrando: essa judicialização da política se agravou com a nomeação de Nelson Jobim (hoje Ministro da Defesa) para o STF, como se fosse um representante do Poder Executivo no Supremo Tribunal, ignorando o papel constitucional e de necessária isenção do STF.
Fundamental na desestabilização e apequenamento do Legislativo também são a arrogância e os excessos do Poder Executivo, fruto de milhares de medidas provisórias e decretos presidenciais. Não esqueçamos do “mensalão”, a compra de votos e o aluguel de mandatos.
Mas essa degradação político-partidária não é privilégio brasileiro. Também na Venezuela, na Bolívia e no Equador, o poder legislativo é ignorado.
Na Argentina, por exemplo, há uma lei delegada que estendeu quase que plenos poderes à Presidenta Cristina Kirchner. É o que se denomina em ciência política como o hiperpresidencialismo.
O velho ditado afirma que não há vácuo de poder. Se alguém se ausenta, se omite, outro ocupa seu lugar. Para o bem e para o mal.
De todo modo, esperemos que o escândalo das passagens não seja mais um êxtase ético do qual se acomete a população brasileira, de tempos em tempos, para logo depois tudo esquecer ao som dos carnavalescos tamborins e dos próximos feriadões!

17 abril 2009

Desigualdade, (in)Diferença e Estado

Independentemente de nosso grau de instrução, escolaridade, informação, leitura e discussão, não há dificuldades para identificarmos e concordarmos acerca de um expressivo número de razões que exemplificam e demarcam o atraso sócio-econômico da nação.
Porém, quero destacar e comentar um aspecto que julgo central para a manutenção de nossas desigualdades e (in)diferença social (e conseqüente violência!).
É aceitável afirmar que a socialização da pessoa se realiza principalmente através das relações em família e em sociedade.
E, secundariamente, através de suas relações obrigatórias, facultativas e reivindicativas com o Estado (leia-se União, Estados e Municípios).
Se o papel da família e da sociedade está diretamente relacionado à disseminação da linguagem, da educação, da cultura e do comportamento, restaria perguntar qual é a tarefa e responsabilidade do Estado.
Face nossas históricas e resistentes diferenças sócio-econômicas, não importando suas origens regionais e temporais, é desejável supor que é competência urgente e prioritária do Estado a articulação das soluções e diminuição dessas diferenças.
Entretanto, posto e exercido o poder e a política como estão, o Estado tem se destacado como agente principal de agravamento das diferenças sociais.
Maquiado e travestido sob o princípio democrático da igualdade de oportunidade e direito, a verdade é que os poderes de Estado estão delegados apenas àqueles que têm condições de utilizar seus códigos e manuais, literal e simbolicamente.
Ensimesmado, inconseqüente e “capturado”, o Estado garante a formação e manutenção de uma "cultura e prática de elite", em contraponto às necessidades populares.
Não é toa que o dinheiro dos impostos, arrancado aos bilhões dos bolsos do povo, escorre por incontáveis ralos, por todos os meios e formas, legais e ilegais, sem cumprir sua função, destino e utilidade pública.
De outro lado, por submissão, inconsciência política e não saber sobre direitos e deveres, é impossível ao povo o uso objetivo e real das oportunidades e razões (originais) de existência do Estado.
Assim, sutil e silenciosamente se instala, se mantém e se renova a discriminação e a violência simbólica e real, assimilada, dominante, dominadora e sem contestação.
Notada e consequentemente em relação aos mais pobres, a violência é um subproduto do excesso, da incompetência e do centralismo estatal, e que se espalha para o conjunto da sociedade, sem barreiras sociais e geográficas.
Em síntese, o Estado (a União, principalmente), que deveria trabalhar pela superação das desigualdades e usar o dinheiro público para o bem comum, se constitui no principal agente de (re)criação e permanência das diferenças e distâncias sociais.

14 abril 2009

Os "Novos" Mutantes

Face o notório agravamento das relações de nosso povo com seus representantes político-governamentais, a evidente frustração e o sentimento de fraude, o crescimento da violência, da indiferença, da pobreza e da desesperança, importa relembrar dois expressivos pensadores políticos.
E ao relembrar especialmente duas frases, outro intuito não há senão provocar o despertar de uma consciência cívica, rebelde e independente nas pessoas.
Acordar o ânimo para a construção de uma nação livre e liberta da influência perversa do Estado e seus representantes, que não servem ao povo, mas que se servem do povo!
Nunca devemos esquecer que governos não produzem um mísero prego ou um grão de feijão. Quem produz a riqueza são as pessoas, com suas famílias, as empresas e os trabalhadores.
O governo deveria ser um intermediário para algumas específicas, limitadas, objetivas e eficazes funções. Quando cresce demais, quando tem importância exagerada, vira um monstro cego e “devorador”.
O russo Mikhail Bakunin (1814-1876) era um estudioso das estruturas de poder e da natureza da condição humana. É o principal pensador e propagador do anarquismo.
Os anarquistas defendem a ausência de governos na suposição de que um sistema social só funciona com a maximização da liberdade individual e da igualdade social.
Bakunin afirmava que a centralização da autoridade e do Estado criavam um obstáculo ao desenvolvimento das pessoas e das nações.
Profeticamente, disse: "O governo da imensa maioria se faz por uma minoria privilegiada que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários, não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana”.
Outro sujeito, Milovan Djilas (1911-1995), ex-ministro, vice-presidente, dissidente e contestador do regime comunista iugoslavo, ao tempo de Josip Broz Tito, dizia em seu livro “A Nova Classe” (1957):
“É muito difícil, talvez impossível, definir os limites da nova classe e identificar seus membros. Pode-se dizer que ela é constituída daqueles que gozam privilégios especiais e favoritismo econômico devido ao monopólio administrativo que detém”.
Os autores em questão se referiam aos excessos da decadente realeza e do ascendente comunismo. Mas, hoje e então, o que dizer de nossa democracia, que a cada dia se revela uma farsa, um artifício e meio de locupletação de uma casta, que se renova como uma praga agrícola, uma mutação cada vez mais poderosa?
Conclusão: não há nada de novo no “front” da história! Poder, arrogância, soberba e escândalos. Agora, também nós assistimos a ascensão e as manobras dos “novos” mutantes!

05 abril 2009

Crises:mortes e renascimentos

As crises sócio-econômicas têm uma faceta interessante e surpreendente. No auge de sua ocorrência e análise, costumam provocar “a morte e o enterro” de pessoas, conceitos e convicções, de teorias políticas, econômicas e sociais.
Mas chama atenção também o fato de que as mesmas crises podem fazer renascer teorias, conceitos e pessoas.
Um camarada que “renasceu” foi o multidisciplinar alemão Karl Marx (1818-1883). Suas teorias haviam “balançado e caído” junto com o Muro de Berlim em 1989.
A rigor, a marginalização de suas idéias já havia ocorrido muitos anos antes, por culpa de quem as mal interpretara e aplicara ideologicamente. Principalmente, os soviéticos marxistas-leninistas no denominado socialismo real (1917-1991).
O “renascimento” de Marx e o interesse por suas obras econômicas principais (O Capital e Grundrisse), em meio à crise atual, se devem a algumas constatações que ele havia feito e que ajudam a explicar as contradições do capitalismo.
Examinando a sociedade burguesa da época e a natureza do desenvolvimento do capitalismo, Marx previra que o surgimento de uma economia globalizada era inerente ao modo capitalista de produção.
Mas também previra que este mesmo processo geraria não somente o crescimento e a prosperidade, mas também conflitos, crises econômicas e injustiça social.
Em face da hegemônica liderança do liberalismo nos últimos anos em quase todo o planeta, e o fato de que a atual crise financeira pode virar uma grande depressão mundial, marxistas e estatizantes em geral declaram, agora, a morte do liberalismo e (re)ascensão do Estado.
Desmoralizados, tradicionais governos liberais, a exemplo dos EUA, Inglaterra e Japão, não resistem às pressões políticas e intervêm no abalado e nervoso mercado, ministrando generosas e fartas doses de tranquilizantes, manipulados à base de dinheiro público.
A esquerda, ou isso que aí está que se autodenomina de esquerda, festeja a crise como um ritual de sepultamento do chamado e rotulado neoliberalismo.
Também estariam sendo enterrados o ufanismo, a arrogância intelectual e cultural do primeiro mundo ocidental, sua pretensão e a mania em dar conselhos aos pobres, remediados e periféricos países terceiro-mundistas.
Sepultadas também estariam as recomendações do FMI e do Banco Mundial, na companhia de seus “chefs de cuisine” com suas receitas de transparência, não corrupção, ética e boa governança.
Ou ainda, dito doutra forma, em presidenciais, inoportunas e lulísticas palavras: os responsáveis pela crise mundial têm cabelos loiros e olhos azuis!
Bem, entre feridos, mortos e vivos, enterradas e desenterradas pessoas, convicções e teorias, tomara que a crise sirva de lição para todos os povos.

27 março 2009

Um milhão é pouco!

Assim é a política nacional. Os mais velhos dizem que sempre foi assim. Promessas, promessas e mais promessas. O anúncio de uma obra é instantâneo. Fazer a obra são “outros quinhentos”.
Prazos não são cumpridos. Pontes e viadutos no meio do nada. Os recursos financeiros saem de tudo que é canto como que por encanto. Só no papo, lógico.
Anúncios gigantescos em jornais e revistas. Espaço publicitário na televisão. Até placas com intenção de obras são inauguradas, pomposamente.
Tudo no papel, tudo no ar. Nada é real. Real é apenas o dinheiro do contribuinte gasto para festas, recepções e anúncios cinematográficos.
Agora, por exemplo, o Presidente Lula reuniu a imprensa e disse que iria construir um milhão de casas. Assim mesmo, sem mais, nem menos. Um milhão de casas!
Coincidentemente, já estamos em processo eleitoral deflagrado. O presidente já anunciou a sua candidata. Então, o plano habitacional é o PAC da Dilma. Plano de Aceleração de Candidatura da Dilma.
Mas disse mais o presidente Lula, naquele tom definitivo e próprio dos enviados dos deuses e predestinados. “Não me cobrem prazos!”.
Quer dizer, disse por que quis, tudo que quis, como quis e ainda fica brabo se alguém pergunta: “quanto, como e quando?”
Mas vamos aos fatos e às perguntas objetivas. Com que dinheiro, com que terrenos? Segundo o plano, estados e municípios deverão apresentar e doar terrenos para a construção.
Estados e municípios também deverão fazer aportes financeiros, infraestrutura e desoneração fiscal em tributos como ICMS, ITBI, ISS, ITCD, além de agilização na aprovação de projetos, alvarás, autorizações e licenças.
Os gênios palacianos esquecem que nos termos propostos, com a participação de estados e municípios, quer para modificação e criação de leis, quer para a doação de terrenos, faz-se necessária discussão, tramitação e aprovações legais.
Quanto aos terrenos a coisa não é assim tão simples. Há dispositivos legais de avaliação e desapropriação, por exemplo. Sem contar a especulação.
Mas voltando ao mágico de Brasília. Claro que um negócio desse porte – um milhão de casas, vai gerar um belo cadastro nacional. Muito útil em ano eleitoral.
Só para lembrar: a carência habitacional brasileira é de oito milhões de moradias. Trabalho dobrado para o Tribunal Eleitoral que deverá fiscalizar para que o cadastro não seja meio de captação de votos.
Sentado em cima de montanhas de dinheiro, fruto da maior carga tributária do planeta, mesmo assim o presidente Lula quer fazer uma revolução com dinheiro alheio!
Um milhão de casas em um ano é o que quer o Presidente. Lembrou disso agora, depois de seis anos de governo. Na véspera da próxima eleição presidencial.
Puxa, Presidente Lula, não seja modesto. Faz logo dois milhões de casas!

20 março 2009

181 Diretorias e 81 "Anões"

181 diretores e 81 “anões”

Esse tragicômico despertar do gigante adormecido – refiro-me ao Senado – e suas 181 diretorias e seus 81 “anões”, é apenas mais um episódio no conjunto da espoliação de um povo escravizado na sua ignorância.
Diferente não é na Câmara dos Deputados, nas Assembléias Legislativas e na maioria das Câmaras de Vereadores. Nos Tribunais de Justiça e de Contas. E nos executivos municipais, estaduais e federal!
Os sucessivos escândalos relacionados à apropriação de bens e dinheiro público têm em comum um fato, uma característica, que merece mais reflexões e análises.
Objetivamente, refiro-me à indiferença e omissão de autoridades e instituições cuja tarefa precípua seria justamente observar a impropriedade de determinadas operações, despesas e a desproporção de valores.
Sucedem-se as transações expressivas e suspeitas como se não houvesse outro brasileiro na outra extremidade do balcão, do negócio, da operação. Uma autoridade, uma chefia superior, ou uma instituição, responsáveis pela conferência e vigilância. E o que ocorre?
Ocorre que tudo é ignorado, olimpicamente, por uma razão muito singela: é o dinheiro dos outros, público ou privado, é dinheiro dos outros. E o dinheiro dos outros, safadamente, é doce de gastar, dilapidar e usurpar!
Como explicar e admitir que ninguém mais observe, com olhos de razão e ponderação, a desproporção de valores, de despesas e do número de servidores?
Aliás, nos dias atuais não requer muito estudo, escolaridade, conhecimento, leitura de jornais e classificados, compra em supermercados, para se saber o preço médio e razoável de qualquer coisa.
Do mesmo modo, é de se supor que se um “João qualquer” se apresentar com um cartão de crédito corporativo do Governo, da Câmara ou do Senado, deva merecer mais atenção cívica e ética do respectivo vendedor ou prestador de serviços.
Também, como explicar a sucessão dos negócios que redundam em escândalos - não no ato da operação como seria de se esperar, mas muito depois e quase sempre por motivos alheios, a exemplo de traições políticas, perda de gratificações, alijamento de licitações, inveja, sexo, politicagem, entre outros exemplos?
Se já não há mais respeito à propriedade privada e pública, se a locupletação é generalizada, se a manutenção e ampliação de privilégios ofensivos à realidade nacional são argüidos e equiparados constitucional e descaradamente, qual é, ou deveria ser, o núcleo de nossa indignação?
Se o nosso dinheiro, fruto de trabalho e recolhimento de impostos, aos olhos e desejos de governantes, autoridades e seus asseclas públicos e privados, resume-se ao simples “dinheiro dos outros”, qual deveria ser o centro de nossa reação?
O que nos esta como razão de indignação e reação? O gigantismo do Estado e o mau-caratismo dos representantes políticos são dois bons assuntos para se debater.
Se não pudermos resolver os dois ao mesmo tempo, a diminuição de um já ajudaria a reduzir a influência do outro. E, conseqüentemente, diminuir o tamanho do assalto continuado!

13 março 2009

Quebra de Confiança - ocaso da República

O Brasil é uma república. A palavra república vem do latim “res publica”. Significa coisa pública, que é de todos.
Liberdade, participação dos cidadãos, submissão às leis e ação limitada do estado são algumas características da república.
O regime republicano brasileiro vigora desde 1889. Embora passado tanto tempo, a república brasileira ainda tem um grande “inimigo”. A corrupção!
Nossa idéia mais comum sobre corrupção está relacionada a desvio de dinheiro público, ou coisas materiais, por um funcionário, um administrador ou um político desonesto. Basicamente, sempre relacionada às coisas públicas, não privadas. Mas esse não é o maior crime do corrupto.
Seu maior crime é “matar a confiança”. A confiança é o núcleo do ideal republicano. A confiança é o principal bem em comunidade. A corrupção elimina a confiança de um cidadão no outro.
De modo que a nossa indignação está erradamente focada na questão do dinheiro. Imprensa e judiciário, principalmente, também cometem o mesmo erro.
Mas porque toleramos a corrupção se ela degrada os bons costumes sociais, e, principalmente, o alicerce da república?
Histórias de outras épocas e nações falam de cidadãos que se orgulhavam da república e davam suas vidas por ela.
Hoje impera o individualismo. Em detrimento do engajamento público e político, a vida privada se ampliou. Trabalho, lazer e valores éticos são medidos a partir do indivíduo. E não do interesse social.
A idéia e a prática da coletividade para nós é uma abstração, um sacrifício. Nada que exija sacrifícios e custos pessoais tem chance de prosperar.
Perdemos a compreensão e a dimensão do interesse público e social. Não acreditamos no coletivo, nem no ideal republicano.
Significa dizer que costumes (ética, não corrupção, ideais públicos) não são mais garantidores e fundadores da república.
E se a república tem um ideal coletivo e valoriza o bem comum, o que significa o compromisso de todos com todos, a corrupção é sua negação.
A corrupção realiza a degradação de bons costumes e “rouba” bens indivisíveis como a virtude, o direito e o ideal comunitário, valores que nos enriquecem coletivamente.
O principal prejuízo causado pela corrupção é a quebra de confiança. Seja a confiança de uma pessoa na outra, seja a confiança nas autoridades e nos demais representantes da sociedade.
Sem confiança não há república. Hoje, atual e infelizmente, nossa república é só de nome. Uma miragem. Uma farsa!
Urgentemente precisamos reinventar o respeito ao próximo e ao interesse coletivo. Recuperar ética e socialmente o ideal de que há algo em comum entre nós.

06 março 2009

Governo rico, povo pobre

O gigantismo do estado brasileiro (governo federal e estados) é evidenciado pelo número de órgãos, empresas e funcionários públicos, tudo e todos assentados, apoiados e garantidos por uma imensa arrecadação e concentração tributária e aparelhamento burocrático. Lógica, inevitável e consequentemente, é um estado perdulário, incompetente e corrupto.
O estado cada vez mais rico, e o povo cada vez mais pobre. Não é a toa que o agravamento de diferenças sociais e injustiças se sucedem e aumentam, dia após dia.
Em todos os quadrantes da nação, uma acirrada luta pela sobrevivência, ilustrada e confirmada pelas estatísticas feitas de miséria, desemprego, drogadição, crimes e mortes em série.
Enquanto isso, homens públicos de sorrisos fartos e pagos com dinheiro público nos falam de uma reforma tributária.
Já sabemos, de antemão, que não diminuirá o grande e concentrado poder da União, um monumento ao desprezo dos ideais republicanos e a independência de estados e municípios.
Aliás, é uma vergonha a romaria de governadores e prefeitos para Brasília, onde trocam abraços, mimos, fotos e “tapinhas” nas costas com as autoridades políticas e burocráticas. E mendigam migalhas.
Fossem lideranças autênticas e politicamente comprometidas, lutariam pela independência tributária de suas comunidades e o alívio nos impostos que o povo paga.
Se ao menos os empresários se dedicassem com mais afinco à denúncia e esclarecimento do povo. Afinal, sob pena de prisão, são obrigados a recolher pesados tributos sobre mercadorias que ainda não venderam. Ou que venderam a prazo. Ou, então, sobre vendas que nunca serão pagas devido à inadimplência e os calotes.
Invés divulgar e organizar a resistência cívica nacional, ficam pedindo prorrogação de prazos de recolhimento, um subterfúgio que não resolve.
De modo que o grande desafio que a sociedade tem pela frente é sua auto-educação tributária. Praticamente, ninguém sabe quanto está pagando de tributos aos governos municipais, estaduais e federal.
Por exemplo, num rancho de R$500,00 será que o consumidor supõe que possa estar pagando PIS, COFINS, IPI, CSLL, IRPJ, totalizando uns R$300,00 que pertencem ao Governo Federal? Isso sem contar o INSS e o PIS-PASEP. E mais R$100,00 de ICMS que pertencem ao Estado e Municípios.
Ou seja, sobram menos de R$100,00 para o empresário pagar seus fornecedores e funcionários. E ainda ter sua margem de lucro para uso pessoal e reinvestimento na empresa.
Pergunto: quem sabe o que significam essas siglas todas (existem mais de 100 impostos, taxas e contribuições!) e para onde vai o dinheiro?
Já está provado com estudos e pesquisas que o governo é um guloso que quer mais, e mais, e sempre mais, e que para sua gula e cardápio cria os mais variados argumentos e necessidades. Ainda que falsos!
No dia em que a maioria das pessoas compreender o significado de cada sigla de tributo e o destino do dinheiro, e souber analisar o comportamento dúbio e omisso das autoridades e dos políticos, talvez a mudança possa começar e o nosso povo enriquecer.
Sim, por que hoje apenas o governo é rico. O povo é pobre. E a cada dia que passa, é cada vez mais pobre. E no meio da pobreza generalizada crescem os vales-disso e daquilo.
Uma forma barata de comprar a simpatia, o silêncio e a consciência dos pobres, as maiores vítimas da concentração tributária.

26 fevereiro 2009

A Era da Ignorância

Tanto em volume quanto em divulgação, nunca foram tantas as alternativas e oportunidades de acesso a educação, ao saber, a cultura, a escolarização e a produção científica.
O conhecimento acumulado acerca da existência humana e do meio-ambiente é fantástico e imenso. A racionalidade e a ciência prosperam e asseguram uma vida melhor.
Passo a passo, crendices e superstições dão lugar ao saber científico e metodológico. Mais e mais pessoas vão além de um conhecimento que tinham e que adquiriram em seus meios de origem social.
Porém, a plena receptividade, a compreensão, o estabelecimento e o desenvolvimento dessas mensagens ainda dependem do esforço e empenho pessoal e individual. Daí que assistimos e vivenciamos um incrível paradoxo.
Ao mesmo tempo em que avançamos grandiosamente na produção e divulgação do saber científico, nunca foi tão grande o número de pessoas (com)partilhando superstições e explicações simplistas, erradas e idiotas. Como se verdade fosse!
A fartura, exuberância e instantaneidade dos modernos meios de comunicação, a exemplo de celulares multimídia e da própria internet, garantem sua propagação.
Bem, podemos dar um “desconto” e admitir, como bem demonstra a história em todos os períodos e sociedades, que a cultura científica sempre foi restrita e elitista.
E que sempre houve uma “competição” da ciência com a cultura popular, rica em simplificações ingênuas e travestidas em conhecimento popular e senso comum.
Um bom exemplo da massificação da ignorância é a crescente oferta e divulgação dos manuais de astrologia e auto-ajuda, com práticas e garantias de “sucesso pessoal, no amor e nas finanças”.
Também prospera o fundamentalismo religioso. Explicações sobre a origem do universo, da vida, da humanidade, que ignoram e contrariam, sem cerimônia, a biologia, a antropologia, a arqueologia e a história, entre outras ciências.
Isso sem falar na “indústria” religiosa, o comércio da fé e seus teólogos da prosperidade, que expurgam “demônios” e abençoam carteiras de trabalho.
Repetindo, haja vista a fartura tecnológica e o acesso universal, muitas pessoas propagam a ignorância, preconceitos e a falsa ciência, sem restrições e sem constrangimentos. Como se houvesse uma genialidade natural, uma geração espontânea do saber.
Mas com tantos corações carentes de afeto, ouvidos ávidos de atenção e estômagos vazios, não é surpresa a supremacia da ignorância, da mistificação e do curandeirismo.

20 fevereiro 2009

Opinião e Julgamento Sumário

Parafraseando no nosso quase unânime e verborrágico presidente, que cunhou a pérola semântica e demagógica “do nunca antes!”, quero dizer, também, que nunca antes houve tanta opinião e julgamento sumário.
E nem me refiro às corriqueiras conversas de esquina, dos fofoqueiros de plantão ou de vizinhas ao pé da cerca, de cuia e vassoura na mão.
A maioria das notícias é apresentada como opinião. Sem provas formais, indícios e suspeitas se tornam evidências incontestáveis e os suspeitos julgados, culpados e condenados. Ou absolvidos. Tudo em 30 segundos!
Não são apenas os renovados escândalos políticos e econômicos, de representantes e autoridades constituídas, instituídas e “prostituídas”.
Mas também no âmbito social, no mundo das pessoas sem poder e sem representação, ocorrem as precipitações de condenação e absolvição.
Dizem que se trata de um fenômeno mundial, fruto da aldeia global e multimídia. Aliás, hoje em dia tudo é pós-moderno, apesar do viés medieval!
Veja fato recente como a brasileira “mutilada” na Suíça. Tudo indica que haverá reversão total das versões pré-enunciadas e anunciadas. Até o experiente Itamaraty “embarcou”!
Tardiamente, os pais afirmaram que a filha sofre de uma doença (Lúpus) que causa alucinações. Bem antes, entretanto, colegas de trabalho da brasileira já haviam dito que a ultrassonografia que ela enviara sobre sua gravidez se tratava de uma imagem copiada da internet.
O fato é que entre a notícia inicial e as informações mais recentes ocorreram muitas acusações, condenações e absolvições prévias, de pessoas comuns, de altas autoridades, partido político suíço e nacionalidades.
Outro exemplo: e aqui entre nós, o que pensar e dizer sobre o suicídio do jovem assessor do governo gaucho, em Brasília. Andava triste e deprimido, dizem seus amigos e familiares, visto que não mais suportava a imputação criminosa que lhe fora feita na CPI do DETRAN, ainda que sem provas, nem processo, nem condenação judicial.
Descontadas e perdoadas as precipitações comuns a todos nós, a verdade é que vivemos uma profunda crise ética acerca da manipulação das palavras e a (des)construção da verdade.
O sacrifício da verdade tem fraudado nossas boas e necessárias expectativas comunitárias. Afinal, qual a motivação de participação e credibilidade se não é dita e pretendida a verdade? Ou, então, se é fomentado o preconceito?
O pior fruto da ausência da verdade, ou da existência da mentira, é a conseqüente hierarquia e supremacia da intolerância.
E não é por falta de recomendações e lições. Exemplarmente, em 26 de agosto de 1789, os franceses já escreviam na sua Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão que toda pessoa é considerada inocente até prova em contrário, e que ninguém poderá ser condenado por suas idéias, mas somente por seus atos.
Também o filósofo alemão Hegel (1770-1831) já dissera que a transformação sumária do suspeito em culpado e sua condenação à morte sem direito de defesa, é uma morte efetuada sob a forma do espetáculo público.

13 fevereiro 2009

Prometeu e o Abutre

Na identificação e conceituação de (quase) tudo, e sempre, a perspectiva e a proximidade são fatores determinantes. Também, e ao fim, ainda se acrescenta um juízo de valor otimista ou pessimista.
Mas se perspectiva e proximidade são fatores objetivos e mensuráveis, os juízos de otimismo e pessimismo são sujeitos e influenciados por motivações e interpretações pessoais e/ou grupais.
Dito isso, quero contestar o ufanismo governamental e seu séquito obediente e nababesco.
São poucos os países no mundo que tem uma distância e uma convivência tão injusta entre sua riqueza real e potencial e a pobreza material e pessoal dos seus habitantes.
Se no passado, em outra circunstância histórica, o Estado foi responsável por ondas de progresso social e industrializante, hoje é o principal fator de atraso e travamento do desenvolvimento nacional.
A nação está sufocada em seu potencial de crescimento social e econômico por um Estado não funcional, perdulário nos seus gastos, inoperante e incompetente nos investimentos produtivo e educacional.
A excessiva e inesgotável centralização estatal retroalimenta sua insaciável voracidade tributária e determina, na mesma proporção, as negociatas, falcatruas e a corrupção.
O Brasil parece Prometeu. Um gigante acorrentado a uma rocha pelos grilhões e condenado a ter seu fígado devorado por um abutre que o debilita continuamente.
No papel do abutre devorador está o Estado (governo federal, principalmente). Prometeu é o povo brasileiro. O fígado é seu bolso e seu futuro.
Dia e noite, noite e dia o “abutre” suga o bolso dos cidadãos acorrentados às centenas de grilhões tributários, fiscais e regulatórios e uma burocracia vigilante e persecutória.
Mas a dependência e os grilhões também são psicológicos. Diariamente, o povo apela e quer que o Estado resolva pequenos problemas locais.
Irônica e paradoxalmente o povo insiste em cobrar serviços desse mesmo e falido Estado, que lhe faz pequenas concessões com “uma mão” e lhe retira mais com a “outra mão”. O centralismo contaminou a sociedade.
Se não dermos um basta ao abutre, e nos libertarmos da ignorância e dos grilhões, continuaremos acorrentados.
Na mitológica história grega, Prometeu e seu irmão Epimeteu foram encarregados pelos deuses para criar homens e animais.
Esgotados os recursos disponíveis, ficara pendente a determinação da superioridade humana. Prometeu, então, destina o domínio do fogo aos humanos. Mas para isso roubara o fogo, exclusividade dos deuses.
Como castigo a Prometeu, Zeus, o senhor do Olimpo e deus supremo, ordenou que fosse acorrentado ao monte Cáucaso, onde todos os dias um abutre ia dilacerar seu regenerável fígado. Esse castigo devia durar 30.000 anos!

06 fevereiro 2009

Sonhar e aventurar

A renovação da utopia e o congraçamento universal são as marcas da organização e realização do Fórum Social Mundial, recém encerrado em Belém do Pará.
Um evento de contraposição à inevitabilidade histórica, ou ao dito fim da história. Um delírio coletivo aos olhos e coração de um conservador!
Politicamente conscientes ou não, conservadores acreditam que “a vida é assim mesmo, que as pessoas são o que são, e que os governos são todos iguais, enfim, o mercado é que sabe.”
Mas é possível crer em “outro mundo”. Povos e governos experimentam ao longo de suas existências diversas teorias políticas e econômicas, alternando sucessos e fracassos.
Historicamente, nos dois extremos das experiências recentes encontramos o capitalismo e o comunismo, teorias ainda em busca de uma síntese. Imaginava-se essa síntese realizada no Estado de Bem-Estar Social tipo europeu, o famoso welfare-state.
Infelizmente, as alterações geopolíticas na Europa modificaram dramaticamente aquela realidade, submetendo-a a graves distúrbios sócio-econômicos alavancadas pelo massivo desemprego.
De modo que, mesmo sob protestos reina o capitalismo com todos os seus defeitos. E no núcleo de tudo, o egoísmo, isso que alguns denominam de inevitabilidade da condição e natureza humana.
Ultimamente, a mundializacão da economia e a concentracão do capital afetam e comprometem a unidade e coesão social dos povos. A supremacia dos mercados parece agravar as desigualdades econômicas.
Consequentemente, a imperfeição do modelo dominante legitima a revolta e a agitação popular. São incertezas e contradições que demandam um esforço e exercício de mobilização, resistência, organização e construção de alternativas.
Todavia, vacinados contra tiranetes e demagogos, há de se lembrar sempre que não podemos prescindir do exercício da liberdade, tolerância e solidariedade.
E no exercício dos pensamentos e dos ideais almejados já fluem algumas utopias reunidas. Vejamos:
As relações econômicas devem estar a serviço da pessoa, e não a pessoa a serviço da economia. A economia é objeto da pessoa e esta seu sujeito, e não a economia sujeito da pessoa e esta seu objeto.
A liberdade de autodeterminação não pode se limitar a capacidade e autonomia de consumo, mas alcançar à idéia de um sentido próprio a vida, de sua consagração positiva.
Resumo das utopias reunidas: trata-se de alimentar a esperança de que a razão e a solidariedade podem superar o instinto predador. Não custa sonhar e se aventurar!
“Aventurar-se causa ansiedade, mas deixar de arriscar-se é perder a si mesmo. Aventurar-se no sentido mais amplo é precisamente tomar consciência de si próprio.”, dizia o teólogo e filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard (1813-1855).

20 janeiro 2009

A Praga do Desemprego

O desemprego atinge níveis recordes em grandes cidades e áreas metropolitanas. Próximos a 20% em algumas regiões.
Também cresce a precarização das condições de trabalho e o incremento do subemprego. São milhões de pessoas que ganham apenas um salário mínimo.
Um salário mínimo é insuficiente para uma pessoa suprir suas necessidades básicas, tais como alimentação, saúde, educação, vestuário e moradia. E menos ainda para suprir as necessidades de uma família!
Também contribuem para o “quadro da dor” a expressiva migração às áreas metropolitanas, o déficit habitacional e a desigualdade de renda.
De acordo com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), da ONU, o Brasil figura entre os países com maior desigualdade de renda.
A renda dos 10% mais ricos da população brasileira é 65,8 vezes maior do que a renda dos 10% mais pobres.
Dados do IBGE confirmam que a camada 1% mais rica da população tem o mesmo volume de dinheiro dos 50% mais pobres.
A falta de trabalho, emprego e renda afetam a dignidade do sujeito e sua cidadania. Desemprego e desigualdade de renda resultam em pobreza e indigência.
Conseqüentemente, se constitui um círculo vicioso. Exclusão do trabalho, da saúde e da educação. Resultado: marginalidade social!
Esta tragédia sócio-econômica exige uma reação da sociedade brasileira. As mudanças não ocorrem por acaso!
Transformações acontecem pela realização de ações, movimentos e ações políticas capazes de influenciar e provocar mudanças na sociedade e nas ações de governos.
Sem este ânimo coletivo, por omissão reforçamos o clientelismo estatal e a imobilidade da sociedade.
Crescimento econômico e políticas compensatórias não são suficientes. Importa realizar programas de investimento em capital humano e em capital social.
Infelizmente, os governantes não privilegiam políticas públicas próprias, nem precipitam a radical reforma do Estado.
Apenas prosseguem com suas ladainhas egocêntricas, suas obras de aparência e o empreguismo de seus amigos e parentes.

10 janeiro 2009

O paradoxo entre política (nacional) e economia (mundial)

A crise financeira mundial em curso, e que a todos afeta, direta ou indiretamente, ainda produzirá muitos estudos, procedimentos e diagnósticos no futuro próximo.
Entre as razões objetivas e subjetivas da crise é possível detectar aspectos de difícil solução/conciliação e que podem ter contribuído para sua explosão e dimensão.
Por exemplo, há evidentes conflitos e divergências operacionais entre a política (nacional!) e a economia dentro de um cenário de mundialização/globalização (da economia!).
A rigor, o espaço e o exercício da política é amplamente realizado no âmbito nacional, enquanto a economia, suas decisões e inflexões, opera extraterritorial e mundialmente.
Um exemplo de conflito fica evidente na contraposição dos interesses de empresas multinacionais, ou nacionais com vocação importadora/exportadora, interessadas no livre comércio e no movimento de capitais, mas sujeitas e influenciadas por legislação e sindicatos protecionistas e submetidas às condições da política nacional.
Regra geral, significa dizer que a política nacional atua como um freio à tendência mundial do livre e abundante comércio.
Nesse paradoxo de vontades, política e economia acabam por opor forças e anular esforços. Consequentemente, travam um “diálogo” impossível.
Atores e ações em torno da mundialização da economia têm dificuldades de se contrapor aos movimentos e processos políticos internos nacionalistas e protecionistas.
Os movimentos e processos políticos nacionais têm compromissos e ambições que vão além dos aspectos econômicos e financeiros, de modo que, quase sempre, incompatíveis com as vontades e tendências globalizantes.
Esse conflito de interesses (e representações) gera uma dialética própria, dominada pela política nacional, porém com grandes prejuízos aos projetos de ampliação do livre comércio mundial, por sua dificuldade e incapacidade de interlocução e superação.
Com certeza, a superação desse difícil paradoxo integra a agenda dos chefes de estado através das reuniões dos famosos grupos (G-8), agora G-20, com a participação de China, Brasil e Índia.
Essa reunião de nações tem no horizonte os grandes desafios econômicos e sociais da atualidade. Mas, em verdade, é a política nacional de cada nação levada ao cenário e confronto mundial.
De modo que, face à atual crise, se mantém todas as expectativas, embora pessimistas, de que oportunamente possam advir medidas conciliatórias e eficazes para contenção dos “estragos” que algumas políticas nacionais provocam no cenário mundializado da economia.

02 janeiro 2009

Um novo ano mais decente

Toma conta do corpo e da alma um sentimento de esperança e otimismo. Porque queremos crer, e precisamos crer, que será melhor o ano que se avizinha.
Querendo ou não, é chegado aquele momento do ano em que nos submetemos ao delírio geral e coletivo. Nessa hora, por mais racionais que sejamos, somos todos um pouco esotéricos e também aficcionados na numerologia.
Afinal, “cremos” que deva ser possível transformar uma coisa em outra coisa melhor com a simples troca de números.
Como se o tempo - que não existe, e só existe porque nos o inventamos para dar sentido e demarcar nossas épocas - pudesse se reconstituir como destino na própria mudança numérica.
Nesse momento mágico, nosso otimismo e esperança são absolutamente cegos, mudos e surdos às circunstâncias atuais que nos cercam.
Circunstâncias cotidianas da vida real feita de desemprego, miséria, inveja, fome, mentiras, desestruturação do senso coletivo, assassinatos em massa, trânsito mortal e deseducação.
Longe daqui, mas perto de nossos corações e nossa solidariedade, o ano novo é “homenageado” com bombardeios “em nome de Deus”, entre judeus e palestinos. Ano e vida nova à intolerância étnica e religiosa!
Em 2009, exemplarmente, espero que todos possamos exercitar o espírito da tolerância e o exercício da moderação como formas de diminuir e evitar os fanatismos.
Que os idealistas (utópicos) e os realistas (equivocados) se façam suscetíveis a argumentação, reflexão e revisão de suas idéias e condutas, de modo a compatibilizar seus ideais com os alheios pensares e direitos.
Que a transformação de nossas crenças não seja retrato de muitas (antigas) experiências, mas, sim, reflexo de receptividade às novas idéias. Em 2009, espero que tenhamos mais humor, ironia e autocrítica!
Mas o exercício da tolerância e da moderação também têm seus custos. Não oferece garantias e exige prudência.
Moderação e tolerância se constituem em novas posições. É natural que gerem reações e efeitos contrários, nem sempre previsíveis.
De modo que minha esperança em relação a 2009 é que sejamos mais reagentes e atrevidos em torno e em defesa do que consideramos valores essenciais.
As inverdades e as injustiças estão por ai contaminando o tecido social. Mesmo quando não estivermos totalmente seguros de nossas ações, sejamos corajosos.
E enquanto não tivermos liberdade, atitude, ação e representação massiva e organizada, vamos fazendo a pequena “guerra” e a rebeldia local.
E se ao cabo das “guerrilhas” de 2009, ainda não alcançarmos e determinarmos um mundo melhor e mais justo, que seja ao menos mais decente!

A inveja como fator de atraso

O gigantismo do estado brasileiro ensina diariamente a (má) lição do intervencionismo e do dirigismo aos demais entes federados e retarda o desenvolvimento sócio-econômico da nação.
Parcela da sociedade passiva, e outra parcela “comprada” com “vales e bolsas”, ignoram a dimensão do equívoco ideológico. Ideológico?
O excesso legislativo e administrativo estatal é sinônimo de burocracia, incompetência, desperdício e corrupção. Mas há algo mais perturbador.
Sob o manto retórico de um igualitarismo impossível e irreal, e sob uma pretensa legitimidade e legalidade adquirida, vigora um sentimento humano comum e inconfesso, ora e aqui como fator de atraso social e econômico da sociedade: a inveja!
A ignorância intelectual e a inocente(?) mentalidade retrógrada fundada em teorias políticas e econômicas insepultas animam a tola convicção de que um Estado eficiente(?) e (pseudo)igualitarista transformará a nação!
Paranóicos e esquizofrênicos que ainda (a)creditam nosso atraso às outras nações e invocam, em alto e convicto tom, os refrões da outrora moda, a exemplo de FMI’s, Consenso(s) de Washington, Alca’s, neoliberalismos e imperialismos.
Em síntese, a pretexto de defender o povo e preservar as riquezas da nação, defendem um Estado exageradamente interventor e dirigista, que resulta obviamente ineficiente, gigantesco e perdulário.
Ignoram as leis básicas da economia. Não sabem sobre trocas voluntárias, lucro, formação de preços e valor, e a própria oferta e demanda.
Não resistiriam a um divã os ditos e nobres “sentimentos” e precipitariam o humano: a inveja! Sorrateira e dissimulada até mesmo no moderno discurso do politicamente correto, socialmente responsável e ambientalmente sustentável.
Ou então, ora em nome da ecologia, ora em nome da economia popular, ora em nome da estética urbana. Meros pretextos!
A onipresença e potência do Estado determinam a inibição criativa dos empreendedores, figuras essenciais para a criação de riqueza e empregos em qualquer sociedade, em qualquer época.
Não é a toa que todos os espasmos(!) desenvolvimentistas privados enfrentam óbices estatais de toda natureza.
Inveja. É isso que há em comum acerca de assuntos obstados como privatizações de empresas públicas, concessões de serviços públicos, permissões para exploração mineral, obras privadas em espaços de interesse público, entre outras hipóteses de intervenção privada, a exemplo dos pedágios gaúchos, o pontal do Estaleiro Só(Porto Alegre) e outras obras idealizadas e não realizadas.