21 novembro 2012

Proteção Demais Enfraquece

As razões mais expressivas para a degradação da educação nacional estão dentro de nossas casas e nas nossas famílias, seja tocante aos níveis de escolaridade e qualidade humana, mas principalmente em relação ao comportamento pessoal. Sem dúvida, vivemos uma grave crise de autoridade e liderança familiar. Tolerância em demasia e omissão no acompanhamento dos estudos e práticas comportamentais dos filhos. Afinal, não é a toa que assistimos diariamente tantos casos de atos de violência, covardia, abusos, omissões e indisciplina, patrocinados por jovens, sejam homens ou mulheres. Conseqüentemente, caímos na inevitável tentação de comparar gerações. Muitas vezes proferidas por nossos pais, as frases abaixo destacadas são exageradas, é verdade, e, aos dias de hoje, completa e politicamente incorretas. Mas sua “didática”, de então, parece ter gerado melhores resultados que as modernas receitas pedagógicas. Gestos e atos paternos e maternos que, atualmente, são condenados pelos especialistas em educação, pedagogia e psicologia. Frases e ameaças simbólicas (ou não) que resultaram em ensinamentos que valorizam alguns aspectos da vida. Ironicamente, hoje tais frases do passado parecem soar como expressões cômicas (mas não menos verdadeiros). Vejamos: Sobre hierarquia, determinação e estudos: "Porque se eu digo que é assim, ponto final! Quem é que manda aqui?” Ou: "Vai ficar aí sentado até comer toda comida!” Ou: "Junta agora esses brinquedos. Pega um por um!” Ou: "Se eu for aí e você não tiver terminado essa lição escolar, você já sabe!” Sobre desafios e raízes familiares: "Olhe para mim. Responda quando eu te fizer uma pergunta!" Ou: "Computador novo? Está pensando que nasceu de família rica, é?”. Sobre sabedoria e justiça: "Quando você tiver a minha idade, você vai entender.” Ou: "Um dia você terá seus filhos, e eu espero que eles façam pra você o mesmo que você faz pra mim. Aí, você vai ver o que é bom!”. Outro assunto. Ou será o mesmo? Estamos de acordo que lugar de crianças e adolescentes é na escola. Mas durante algumas horas do dia, em casa e fora do horário de estudos, crianças de 12 a 18 anos também podem trabalhar e ajudar os pais. Alguém tem dúvida que o trabalho, noções de dever, compromisso e responsabilidade, são ótimos “professores e educadores”? Mas, ultimamente, governantes, leis, promotores e juízes acham que não. Infelizmente, esquecem uma óbvia lição histórica e milenar: proteção demais enfraquece!

16 novembro 2012

PARA COMPREENDER A VIOLÊNCIA (em Zero Hora de 16.11.12)

Nós estamos no fundo do poço. Há quem diga que já passamos do fundo do poço. É verdade. Basta relacionarmos os inúmeros episódios passados e recentes de violência explícita. E nem falarei sobre presídios lotados, processos parados e inquéritos não terminados ou nem iniciados. Lembra: a morte do índio pataxó (queimado por jovens de classe média), o jornalista Tim Lopes (torturado e queimado por bandidos), o recente caso do mendigo de Caxias do Sul, a série de crianças estupradas e assassinadas, os ônibus incendiados com passageiros dentro, os ataques no Rio de Janeiro, em São Paulo e, agora, em Santa Catarina. É uma lista sem fim e sem limites de crueldade. E qual tem sido nossa reação ao crime organizado e à violência em geral? Abaixo-assinados, passeatas, criação de ONGs, entre outras atitudes passageiras e sem objetividade prática. Enfim, notícias de jornal e TV que noutro dia dão lugar às notícias mais recentes (novos crimes). Em comum, nossas reações têm o pedido de paz. Paz? Paz, não! Queremos justiça, ação policial, condenações, prisões. Ação de estado! Mas, sobre os pedidos de paz, façamos uma reflexão. Um raciocínio de natureza filosófica, de elucubração, pretendendo a compreensão e/ou constituição racional das coisas que nos cercam. A professora paulista Marilena Chauí (USP), em um antigo estudo sobre a violência, já observava que vários “dispositivos” e atitudes contribuem para ocultar a violência real e suas razões. Entre eles, destacava: (1) um sistema jurídico que localiza a violência apenas nos crimes contra a propriedade e a vida; (2) um sistema sociológico que considera a violência um momento no qual os grupos sociais “atrasados” (eles) entram em contato com grupos sociais “modernos” (nós). É o momento em “os desadaptados” (eles) tornam-se violentos; (3) a vigência de uma distinção entre um “nós brasileiros não-violentos” e um “eles violentos”. “Eles” são todos aqueles que, “atrasados” e deserdados, empregam a força contra a propriedade e a vida de “nós brasileiros não-violentos”; (4) e uma prática de distinção entre o essencial e o acidental: a sociedade brasileira não seria violenta. A violência seria apenas um acidente na superfície social sem tocar em seu fundo essencialmente não-violento. Isto explica, inclusive, porque os meios de comunicação se referem à violência com as palavras “surto”, “onda”, “epidemia”, “crise”, isto é, palavras que indicam algo passageiro e acidental. Conseqüentemente, as desigualdades e as exclusões, o autoritarismo que regula todas as relações sociais, a corrupção, o racismo, o sexismo, as diversas formas de intolerâncias, não são consideradas formas de violência. Isto é, a sociedade brasileira não é percebida (e não se auto-percebe) como estruturalmente violenta e por isso a violência aparece como um fato esporádico superável. Esporádico e superável? Afinal, somos ou não somos violentos? E o que você acha? Pare, pense e reflita! Talvez o “caminho da salvação” passe pela ampliação e aferição dessa compreensão.

14 novembro 2012

OS "REIS DO PUXADINHO"

É histórica (e quase unânime) a compreensão de que a antecedência do Estado - antes que surgisse uma sociedade brasileira – é fator responsável por muitos males que atrasam nosso desenvolvimento sócio-econômico. Os reflexos negativos da conseqüente adaptação e submissão da sociedade ao estado. E entre estes males, a questão da reiterada descontinuidade administrativa, presente em todos os níveis da administração pública. Objetivamente, sucede que à posse de cada novo governante recai sobre nosso povo uma avalanche de idéias e ações que se pretendem reformadoras, quando não “revolucionárias” (sic). Os (novos) governantes acreditam que estão predestinados a fazer “a reforma das reformas” no aparelho estatal. E assim estamos permanentemente “reformando o estado”. Por quê? Porque tudo que o outro (governante) legou, não presta. É um estigma. Uma maldição. Invariavelmente, o resultado de cada intervenção tem um subproduto pior. Primeiramente, porque pessoas e necessidades públicas que deveriam ser o objeto principal da ação do estado (e sua anunciada reforma) são sempre e novamente relegadas ao segundo plano. Reiteradamente são favorecidos setores e classes já abonadas e, obviamente, onerada toda a população nas crescentes taxas de espoliação tributaria. Sistematicamente falhamos no planejamento. Nossas políticas públicas não resistem ao tempo e as sucessões político-partidário-administrativas. Boas intenções e retóricos planos não se confirmam na prática e na contabilidade final. Desculpas nunca faltam. Obstáculos político-partidários, gargalos institucionais, excessos burocráticos, incapacidade financeira e insuficiência técnica de gestão, entre outros. Resultado final: frustrações, perda de tempo e desperdício de dinheiro público. A frustração popular também resta agravada porque sempre se dissera que o esmero e o extremo da prática democrática provocariam o desenvolvimento e as superações. Não é verdade. Agora, bem sabemos que a prática da democracia não ocasiona por si só o desenvolvimento almejado e a qualidade necessária. Ainda que possamos registrar melhorias nos níveis de erradicação da pobreza e elevação dos níveis de consumo popular, ainda vigem e pairam sobre nós as centenárias práticas do patrimonialismo, do feudalismo, do clientelismo, do mandonismo e do personalismo. Há uma lista interminável de outros “ismos”. A não superação desses “pecados capitais” é a causa fundamental da não continuidade administrativa e do não êxito de todas as reformas intentadas e tentadas. Somos os “reis do puxadinho”!

07 novembro 2012

Uma Questão de Princípios(ainda o mensalão)

O anarquista e pensador político russo Mikhail Bakunin (1814-1876) foi profético: "(...) chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo (...) se faz por uma minoria privilegiada (...) tão logo se tornem governantes (...) não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana”. Antes de sua expulsão do PT (2003), a senadora alagoana Heloisa Helena também foi visionária: “(...) considerava que o nosso Governo teria a obrigação de mostrar ao País o que dizíamos que eram os crimes contra a Administração Pública, o tráfico de influência, a intermediação de interesses privados...” Nunca tive dúvidas sobre a dimensão e o significado do escândalo do “mensalão”. Em 2005, escrevi e publiquei dois artigos sob o título “Renuncie, presidente!”, apesar de pessoal e convictamente haver votado quatro vezes em Lula. Seria ousadia, absurdo e impertinência pedir a renúncia do presidente da república? Acredito que não. Pelo conjunto do que foi filmado, dito, testemunhado, investigado e apurado, somado a comprovável e repetida retórica e vocação petista para hegemonia (observe as queixas de seus parceiros eleitorais!), não restava dúvida quanto ao evidente atentado ao sistema democrático, à expensa do dinheiro público desviado ardilosamente via negócios fraudulentos. Entretanto, nem Lula se considerou pessoal e politicamente responsável. A rigor uma hipótese desmentida na sua própria entrevista e pedido de desculpas em Paris. E nem a oposição foi competente e capaz de acusá-lo e promover o processo de “impeachment”. Talvez a oposição nem quisesse. O PSDB, principalmente, escaldado pelo risco do “rabo preso do mensalinho mineiro”. Onde, dizem, que tudo começou! À época também havia a preocupação com a governabilidade. Afinal, já tínhamos passado pela desagradável experiência da cassação do presidente Collor (1992). Aliás, financeira e judicialmente comparado com o “mensalão”, o caso Collor é “de pequenas causas”. Também não justifica a omissão tocante a responsabilização do presidente Lula o fato de ter tido expressiva votação e reeleição. Ou por ter sido um bom e popular presidente, segundo alguns. A reverência pessoal e os supostos temores socioeconômicos não deveriam ser argüidos para deixar de combater e refutar o ataque sofrido pelo sistema democrático, aos princípios republicanos e ritos constitucionais. Pertinentemente, quando é desencadeado um processo de responsabilização e possível “impeachment presidencial” não se está apenas questionando o governante e seu partido, mas, essencialmente, se está tratando de preservar os valores éticos e sociais que devem nortear e garantir a república. É uma questão de princípios.

31 outubro 2012

Estados Unidos do Mundo

O “mundo” acompanha o processo eleitoral dos Estados Unidos da América, mais precisamente a disputa entre o atual presidente e democrata Barack Obama e o republicano Mitt Romney. E por quê? Porque os EUA estão presentes em todos os cantos do universo, para o bem e o mal. Desde a tragédia das torres gêmeas nova-iorquinas alimentou-se a esperança e a utopia de que norte-americanos melhor compreendessem seus exageros intervencionistas/imperialistas e agissem em sua contenção e moderação. Mera ilusão! Os EUA constituem-se no grande império econômico-bélico, sem precedentes na história do mundo, e não haverá de sensibilizar-se com crises de identidade de outros povos, notadamente àqueles subordinados e dependentes. Isto significa que se dispõem a pagar o preço e o custo da hegemonia, inclusive com vidas humanas, próprias ou de outras nações. Então, dada sua “vocação” imperialista, não se limitarão às suas expostas razões de combate ao terror, mas promoverão e garantirão sempre a (re)definição dos papéis globais, dos territórios de dominação e da qualidade e natureza intervencionista. O pós-guerra fria determinou aos demais países a inevitável (e seja o que Deus quiser!) convivência com uma superpotência remanescente. Irônica e cinicamente, os EUA realizam um discurso pretensamente pacifista e universalista - e utopicamente distribuidor de progresso e renda - concomitantemente com as diárias práticas intervencionistas de natureza econômica e militar, em tutela política de países e regiões periféricas, a exemplo do Oriente Médio. O moderno imperialismo também se impõe pela produção e distribuição dos produtos de comunicação de massa, suficientes para o estabelecimento e predomínio cultural de um meio ou modo de vida, no caso estrangeiro, resultando na perda da auto-estima dos nativos e na desfiguração da identidade nacional, entre outros pontos relevantes. Com o desenvolvimento e alcance da parafernália eletrônica midiática e a abertura plena dos mercados econômicos, tais diferenças entre os povos tornaram-se flagrantes e de conseqüências imprevisíveis. Esta experiência contraditória, o interregno entre a decadência – ou seria subjugação? - dos valores sociais e culturais de uma nação e a assimilação/sobreposição de modelos e valores estrangeiros, é comum na história da humanidade, mas revela-se particular e excepcionalmente dramática, nos dias de hoje, dada a frequência e instantaneidade das comunicações e ocorrências. Objetiva e consequentemente, o que sucede, a qualquer tempo e época, é que toda nação com pretensões imperialistas se sujeita a antipatia dos “conquistados e dominados”.

24 outubro 2012

Perdedores e Vencedores(II)

Na edição anterior, examinamos o rol de vencedores. Hoje, os perdedores. A principal e grande perdedora é a prefeita Kelly Moraes (PTB). Durante vários anos primeira-dama municipal, deputada estadual e federal, a experiência pessoal acumulada não foi suficiente para realçar seus melhores feitos administrativos, minimizar os erros e assegurar a reeleição. Divide o ônus da derrota com sua assessoria técnica, política e eleitoral. Erro primário e fundamental foi permitir que o processo licitatório da água “invadisse e contaminasse” o ano e período eleitoral. Haja vista a rejeição popular à privatização, desde o primeiro momento, outro erro foi não ter tido humildade para recuar. Instalada a grave polêmica e considerados os elevados níveis de instabilidade e inconstância do respectivo processo, inclusive de natureza judicial e com insinuações de possíveis favorecimentos privados, deveria ter cancelado todo o procedimento. Derrotado também sai o vice-prefeito Luiz Campis e seu partido (PT), embora a expressiva nominata eleita de vereadores. Ambos derrotados porque não souberam e não conseguiram agregar qualidade técnica e política à gestão. Ou não foram capazes de demonstrar isso eleitoralmente. Aliás, qualidades que se pressupunha existirem e que se lhes atribuíra parcela da população, em tese, obviamente. Derrotados e prejudicada a coligação, fica adiado o projeto maior do vice-prefeito e seu partido. Derrotados também saem os deputados estaduais Marcelo Moraes (PTB) e Heitor Schuch (PSB). Embora cabos eleitorais de qualidade e relevância, não somaram o suficiente à campanha de Kelly Moraes. Passaram despercebidos pela população. No caso do deputado Heitor Schuch, uma derrota agravada se também considerarmos a candidatura de sua esposa (de quem o deputado foi o principal cabo eleitoral), razão de constrangimento e inibição para os demais candidatos (a vereador) do seu partido. Sua votação parece ter sido reveladora. Como nada é definitivo, à exceção da morte, os perdedores de hoje poderão ser os vencedores de amanhã. O contrário, do mesmo modo, também acontece, ou seja, os vencedores de hoje poderão ser os perdedores amanhã. Em tempo: o deputado federal Sérgio Moraes (PTB) também é um perdedor. Porém, circunstancialmente pode ser reabilitado – já declarou que é candidato na próxima eleição para prefeito (2016). Afinal, o compromisso com Campis e o PT já não existe mais. Então, o futuro poderá dizer se Sérgio não ficou, nessa eleição, num estratégico e conveniente empate!

18 outubro 2012

Vaidade e Justiça (STF)

Publicado no jornal Zero Hora (Porto Alegre-RS) em 17 de outubro de 2012. Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) são os guardiões das leis e da constituição federal. Seu mandato e comportamento exigem resguardo e seriedade, de modo a garantir a qualidade e integridade dos atos e reflexões jurídicas. Naturalmente, em se tratando de um tribunal de questões de direito, legalidade e constitucionalidade, muito divergem entre si, com veemência e, às vezes, beirando questões pessoais. Ultimamente, porém, há sérios motivos para preocupações, haja vista os evidentes excessos comportamentais. Não faz muito tempo, o ministro Gilmar Mendes foi acusado e chamado de “coronel” e de manter jagunços em sua fazenda. Noutro episódio, o ministro Joaquim Barbosa foi flagrado num animado boteco, embora em licença médica. O mesmo Barbosa chamou o ex-presidente Cezar Peluso de "imperial e tirânico”. Em resposta, Peluso disse que Barbosa “é uma pessoa insegura e que reagia violentamente quando provocado”. Mais recentemente, os ministros Gilmar Mendes e Marco Aurélio Mello divergiram asperamente sobre a (suposta) intervenção de Lula no STF. Lula teria sugerido o adiamento do julgamento do “mensalão”. E assim sucedem-se os bate-bocas entre os ministros do STF. Esquecem as boas regras e submetem-se a “lavação de roupa suja”, ignorando o senso de decoro e a necessária solenidade que o cargo e função exigem. Sob o risco de perder a reputação do juiz, ou, pior, do próprio tribunal. Tanto num caso quanto no outro, há um prejudicado maior: a nação e sua segurança jurídica. Há quem localize o agravamento dessas diferenças de comportamento dos juízes na transmissão televisiva direta e ao vivo das sessões do Supremo Tribunal. O que parece um democrático exemplo de transparência teria contribuído para o acirramento das discussões e o florescer das vaidades. Os juízes viraram celebridades nacionais. Então, como que acometidos pela vaidade e por preocupações políticas e comportamentais, os ministros estariam votando e fazendo populismo judicial. Dessa confusão redundou outro acirrado debate, qual seja, que uns seriam “consequencialistas”, ou seja, que interpretam a lei atentos ao resultado da decisão, e a outra corrente seria dos “formalistas”, que se atêm à letra da lei. A rigor, o que parecia ser e ter motivação doutrinária, se revelou mera discussão pessoal, de vaidades e orgulhos. Não é a toa que o sempre polêmico ministro Marco Aurélio Mello reconheceu e declarou: “O Supremo é composto de ilhas. Nós não temos uma convivência social maior (...). Infelizmente, já até se proclamou que o colegiado é um ninho de víboras”. A verdade é que o tribunal tem agido menos como um tribunal colegiado e mais como um ajuntamento de posições pessoais. A supremacia do personalismo em detrimento do ideal coletivo.

17 outubro 2012

Perdedores e vencedores (eleição de Santa Cruz do Sul(RS)

Basicamente, são três os vencedores. Uma família, um candidato a prefeito e uma empresa. A família, obviamente, é o casal Hermany. Ela agora vice-prefeita e ele vereador reeleito. Aliás, essa vocação do brasileiro para votar em núcleos familiares é algo a ser estudado. É um fenômeno nacional. Uma vocação monárquica, um gosto pela dinastia e a hereditariedade. Mas, com certeza, não é bom para a democracia brasileira. De todo modo, o casal tem méritos evidentes na conquista. Ele um combativo e atuante vereador, e ela uma incansável ativista pela causa social. O grande vencedor, sem dúvida, é o ex-deputado Telmo Kirst, até então tido por todas as rodas de opinião como de carreira política encerrada. Aqui cabe um parêntese. Independentemente das qualidades políticas e pessoais do prefeito eleito, e ele as têm, a circunstância do processo eleitoral e a dimensão do resultado final permitem concluir que era tamanha a rejeição da atual prefeita e sua administração que talvez outro candidato pudesse alcançar o mesmo sucesso. E por que outro? Porque Telmo, com certeza, não era o candidato ideal. Por seu comprometimento político-partidário no passado - alinhamento ideológico com a ditadura militar, como co-responsável pelas políticas públicas incompetentes das sucessivas gestões municipais do seu partido (que viabilizaram a ascensão do clã Moraes) e, nos últimos anos, por seu distanciamento explícito nos debates, circunstâncias e sucessões locais. Claro que estes fatos a que me refiro – alinhamento político com a hegemonia e ditadura militar, co-responsabilidade na ascensão do clã Moraes e apatia nos sucessivos processos eleitorais locais - já fazem parte do passado. E a memória do passado e da história são rápida e verdadeiramente fugazes e voláteis. Ironicamente, Telmo Kirst apresentou-se como a alternativa, como sendo “o novo”, embora sendo representativo do que há de mais antigo politicamente em Santa Cruz do Sul. Mas, repito, mesmo isso que ora afirmo já faz parte de um novo e insignificante passado. Por quê? Porque Telmo Kirst se reposicionou vitoriosamente no tabuleiro político. Ressurgiu das cinzas. Seu grande mérito foi ter percebido que era sua grande chance. Talvez a última. E soube conquistá-la. Finalmente, o outro grande vencedor, ainda que não tenha feito campanha político-eleitoral - afinal, é uma empresa, é a Corsan. O que só se confirmará se for mantida a promessa do candidato eleito, contrariamente à “privatização da água”! Semana que vem escrevo sobre os perdedores.

10 outubro 2012

Perguntas sem respostas (eleição de Santa Cruz do Sul)

De antemão, é necessário dizer que depois que os votos são totalizados e exibidos sempre surgem inúmeras explicações para demonstrar e comprovar determinados resultados, eventualmente surpreendentes. Regra geral, as explicações e justificativas são pertinentes, razoáveis e consideráveis, umas mais, outras menos. De todo modo, foi uma surpresa a derrota de Kelly/Campis, da coligação PTB-PT. Então, o que teria acontecido? E terá sido, realmente, uma surpresa eleitoral? Nesse sentido, surgem hipóteses criativas e adeptas da teoria da conspiração. Uma delas cogita que o principal cabo eleitoral de Kelly, o deputado Sérgio Moraes (PTB), teria “cruzado os braços”. E por quê? Porque uma derrota manteria em destaque seu nome e provável candidatura futura a prefeito, enquanto que uma vitoria obrigaria o cumprimento do acordo com o PT, isto é, com a candidatura de Campis (PT) na próxima eleição municipal (2016). Muito intensas também foram as fofocas, notadamente aquelas que diziam respeito às questões de natureza íntima e pessoal (situação conjugal e afetiva da candidata). E fofocas sobre possíveis negócios e interesses obscuros (caso “privatização” da água), envolvendo, inclusive, notórios e ascendentes empresários locais. Aliás, tocante as contra-informações (fofocas), não há dúvida que exercem uma atração impressionante entre o povo. Entretanto, é praticamente impossível que possamos aferir sua dimensão e influência na decisão eleitoral do cidadão. Outro aspecto. No meu entender, o mais grave. Embora saibamos que são duas eleições diferentes (vereador e prefeito), que têm circunstâncias e motivações variadas e variáveis, tanto do ponto de vista do cidadão quanto dos candidatos a vereador (sempre muito maleáveis e “conciliatórios”), as diferenças entre os respectivos totais de votos finais são absolutamente “inexplicáveis”. Como explicar que os vereadores da coligação de Kelly façam 50.390 votos e a prefeita faça apenas 35.436 votos, provocando uma diferença exagerada e incompatível (14.954 votos). Surpreendentemente, essa diferença é praticamente a mesma que separa os votos do agora prefeito eleito Telmo Kirst (40.614 votos) de sua base de apoio eleitoral/vereadores (26.758 votos). Havia, então, tamanha rejeição pessoal (e familiar?) tocante à prefeita e sua administração, capaz de induzir seus candidatos a vereador ao silêncio e passividade, e preocupados apenas em salvar o próprio voto? Se havia um desastre em curso, como que não foi detectado antes e alertada a candidata? Mais: quer dizer que perderam a eleição e fizeram 12 vereadores? E que o adversário venceu e fez apenas cinco vereadores? Concluindo, creio que os candidatos a vereador da coligação PTB/PT devem sérias explicações à candidata derrotada. São perguntas sem respostas.

03 outubro 2012

Fazedores de Promessas

Eleições. Mais uma em nossas vidas. E o que elas têm em comum? Renovam-se as promessas e os grandes planos de solução dos habituais problemas. Em qualquer esfera de poder, campanhas eleitorais e novos governos sempre são muito criativos. Criativos até demais! São planos de ação, programas e projetos, antecipadamente dito extraordinários. Infelizmente, muito raramente realizam-se. Aliás, é de nossa (péssima) tradição legar aos sucessores e cidadãos as meias-soluções e obras incompletas. Dito de outro modo: problemas por inteiro. O que, invariavelmente, resulta em descrédito pessoal e desperdício de recursos humanos e financeiros, déficit público e inflação. O mais surpreendente é a repetida e inesgotável capacidade dos candidatos e governantes retornarem à cena pública para prescrever os “novos” remédios e as criativas soluções. Porém, há algo mais incrível: nós acreditamos! Trata-se de uma inevitável analogia com o mundo místico, com o universo mágico e com o sistema de crenças. A regra-geral do sistema de crenças consiste em que o fracasso acaba por reforçar a credibilidade, à medida que o erro se deve a um desempenho incompleto ou equivocado na aplicação dos meios, ou, vulgarmente, dos ingredientes da receita. É o que ocorre nos rituais e crenças em geral, onde magos, feiticeiros e assemelhados, diante do resultado não esperado, atribuem a falha não a crença em si, mas aos meios utilizados, que tanto pode ser uma reza mal-feita, um ciclo lunar indevido, sacrifícios não cumpridos, ervas velhas e mal-cheirosas. Repito, surpreendentemente nós continuamos acreditando! Porém, tudo isso não desfaz nossas esperanças, sem as quais nos tornaríamos intolerantes e implacáveis com as formas de poder de estado e poder privado, sobretudo aquelas que usurpam e manipulam (e legislam) na manutenção de seus feudos medievais, onerando os cofres públicos e os bolsos do povo. Em nome desta esperança, almejamos que os fazedores de promessas façam sua reciclagem, começando pelo próprio ego - por natureza "inflado", e renunciem à repetida e sedutora tentação de reinventar a roda. Limitem-se ao exercício da humildade e do possível. É isso. É aqui que reside o diferencial da receita mágica e da promessa viável: a medida do possível. E a medida do possível encontra-se nas ruas, nas filas do desemprego e dos supermercados, na face e na voz do povo. Mas importa ouvir!

26 setembro 2012

Eleições: o lado cômico

Eleições, partidos e processo eleitoral é assunto sério. Afinal, são os candidatos eleitos que vão responder por uma série de questões de interesse público e pela administração do dinheiro recolhido do povo. Mas também têm aspectos cômicos nas eleições, principalmente de parte dos candidatos a vereador. Habitualmente, com pouco ou nenhum dinheiro, na ânsia de chamar atenção, de se tornarem conhecidos, usam apelidos, fazem promessas mirabolantes, inventam frases de efeito e fazem rimas pretensamente poéticas. Pode parecer ridículo, mas existe lógica nessa criatividade. Estabelecem a relação com aquilo que os identifica na sua comunidade e meio profissional. Ou, então, apresentam propostas absurdas, quase sempre idéias técnica ou financeiramente inviáveis. Uma razão adicional para encontrar um meio de chamar atenção é o seu escasso tempo de manifestação na TV e no rádio. . Historicamente, examinadas várias eleições, são raros os exemplos de sucesso. Não é suficiente um nome chamativo, uma idéia ousada e um comportamento extravagante. Para obter os votos necessários para se eleger é preciso mais. Notadamente, qualidades e relacionamentos pessoais e propostas sérias. Vejamos os cômicos exemplos. Selecionados nacionalmente, alguns candidatos usam nomes de personagens de televisão e videogames. São eles: “Tarzan, Robin Hood, Peter Pan, Pedrita, Chapolin, seu Madruga, Rambo Gaucho e Sonic”. Tem uma candidata que usa o nome de “Mulher Xuxu”. Suspeito que ela quisesse dizer “Mulher Chuchu”, parodiando as demais mulheres-fruta que fazem sucesso com seus “rebolations”. E tem a “Claudete, a Mulher Mundial”. São muitos os amantes dos bichos, se identificando a tal ponto que utilizam como nome eleitoral: “Grilinho, Tubarão, Professor Peru, Dorinha Andorinha, Jegue Dente de Ouro e o Baxinho Dog”. E tem os que relacionam seus nomes a alimentos: “Abraão do Queijo, Professor Pipoca, Danone, Joãozinho do Tomate e o Macarrão”. Outros relacionam seu registro eleitoral a profissões e trabalhos: “Alex do Samu, Lú do DPVAT, Sandrão Moto Boy, Norma das Pensionistas, Loirinho da Pizzaria, Adão da Parabólica, Jeferson do Caminhão do Lixo, Farinha da Funerária, Amiguinho do Reboque e Gago da Feira”. Têm os candidatos internacionais: “Obama de BH, Saddam Hussein e o Bin Laden”. Ainda bem que são candidatos em cidades diferentes. Entre todos extravagantes candidatos e seus slogans, o que eu mais gostei é bem ideológico: “Mude de posição. Vote Dibruço!”. Para saber tudo sobre candidatos, nomes, apelidos e bens patrimoniais, acesse: http://divulgacand2012.tse.jus.br/divulgacand2012

19 setembro 2012

Ontem e Hoje (continuação)

Ontem e hoje (II) Na edição anterior, eu dizia que uma temática recorrente na “internet” são os arquivos que tratam das diferenças qualitativas entre gerações. Dizia também que comparar gerações e traçar paralelos sócio-comportamentais é de uma dificuldade crescente e proporcional a quantidade de variáveis - fatores sociais, econômicos e culturais - que incidem em cada geração. Por exemplo, na questão dos padrões de consumo. O consumismo. Com certeza, não havia a pressão que percebemos hoje dos filhos sobre os pais em termos de consumo. Assim, se poderia dizer que era uma geração menos consumista. Mas, importa dizer também que a oferta de bens e atrativos era bem menor do que hoje, o que de certo modo justifica a pressão atual. Muitos objetos e serviços de consumo atual, a exemplo de TV a cabo e banda larga de internet, celular e computador, contribuem para uma inserção e integração social dos jovens. Não tenho dúvida que se existissem à minha época, iria “enlouquecer” meus pais para ter tais equipamentos. E a política e a consciência social? Comparativamente, creio que a juventude atual detém mais informações do que detinha a geração anterior. E, ponto importante, tem uma visão muito mais crítica, mais real da política. Consequentemente, tem uma perspectiva mais realista, menos utópica, o que é bom e é ruim ao mesmo tempo. Bom porque não alimenta ilusões sobre o papel dos políticos e governantes, mas ruim porque não contribui objetivamente para a superação deste quadro de pobreza cívica. Outro ponto importante que distingue politicamente as duas gerações. A geração anterior contribuiu para a redemocratização nacional. Enquanto que a atual geração tem desafios pontuais a serem superados, a exemplo da praga da corrupção, da questão ambiental, da redução dos impostos e da criação de empregos. Questões cruciais nos dias de hoje. Finalmente, tocante aos vícios. Ao consumo de bebidas alcoólicas, em especial. Neste ponto, a geração anterior perde de goleada. Não que não houvesse os pinguços. Mas eram sempre os mesmos. Porém, nunca se bebeu tanto entre os jovens quanto hoje. Inclusive as mulheres. Parece que é impossível fazer uma reunião de amigos sem bebidas. Acho que é natural haver uma idealização de nossa infância, de nossa juventude, de nossas relações, por exemplo. Afinal, cada época tem seus atrativos e suas circunstâncias. Esta valorização do passado é uma ação preventiva e defensiva contra os dissabores que o futuro (e a velhice) nos reserva.

12 setembro 2012

Ontem e hoje

Nestes tempos de “todos plugados na internet!”, principalmente através de incontáveis e intermináveis “emails”, uma temática recorrente são os arquivos que tratam das diferenças qualitativas (estilo de vida) entre gerações. Evidentemente, com os mais velhos “puxando a brasa” em detrimento dos mais jovens. Comparar gerações e traçar paralelos sócio-comportamentais parece muito com aquela tentativa de comparar jogadores e times de futebol de ontem com os de hoje. A dificuldade é crescente e proporcional a quantidade de variáveis (fatores sociais, econômicos e culturais) que incidem em cada geração. Relativamente à juventude e aos dias de hoje, não podemos ignorar como um fator de mudança de atitude e comportamento a influência negativa da criminalidade e do desemprego. Mas, sob um olhar otimista este mesmo conjunto de fatores estressantes proporciona o surgimento de jovens mais “antenados” com a realidade e relativamente mais maduros. Muito se fala também sobre a precariedade dos atuais laços sociais. Cogita-se que a questão do emprego/desemprego/renda - haja vista que há concorrência explícita e implícita - influencia diretamente os fatores de relacionamento, tornando os jovens mais competitivos, consequentemente afetando e comprometendo a qualidade e o conjunto de suas relações sociais. Nesse “pacote competitivo” devemos incluir o “peso” do discurso do sucesso, do poder, do “eu posso”, hoje produtos-mensagem presentes em todas as prateleiras e códigos de auto-ajuda. Neste sentido, ousaria dizer que as relações sociais do passado eram menos tensas e menos competitivas. Também não podemos ignorar as questões relacionadas ao desenvolvimento e relacionamento afetivo. A absoluta liberalidade atual de comportamento, marca da geração “ficante”, contribui para uma vulgarização da afetividade, daí a dificuldade de construção de relações estáveis e intimistas. Agravados pela gritante precocidade e antecipação da iniciação sexual. O que não quer dizer que a dita estabilidade das relações afetivas do passado correspondesse à autenticidade. Talvez a estabilidade conjugal fosse muito mais conseqüência dos temores de censura social, em caso de dissolução. Tocante aos jovens, e apontando um contraponto para minhas afirmativas, quero dizer que acho que a gurizada de hoje domina melhor estas questões (e frustrações) afetivas, não “esquentando” muito a cabeça, não se estressando muito. Afinal, a “fila anda!” (continua)

05 setembro 2012

Política: efeitos colaterais

Há unanimidade de opinião acerca do evidente empobrecimento do debate político. Um dos sinais mais expressivos dessa miserabilização se opera através da linguagem. Passo seguinte, ocorre a intoxicação de aspectos morais e políticos. Baixa linguagem, decadência cultural, moralidade e política rasas interagem e se autodegradam, paulatinamente. Acredita-se que é um fenômeno irreversível e conseqüência da comunicação de massa. A diversidade sócio-cultural das platéias determina o baixo nivelamento da linguagem adotada. Questão discutível. Em comum, porém, a vulgaridade. A incorporação do vulgar, do grosseiro, da insolência, e, às vezes, até da violência verbal, rompe a barreira do razoável e contamina as idéias político-ideológicas. Para pior. Evidentemente, alguns políticos (e candidatos e partidos), em defesa própria, contra-argumentam se autointitulando como autênticos. Quando, na verdade, são apenas grosseiros. Isso quando não alegam algo pior e irresponsável: de que falam a linguagem de seu público! Logo, o que deveria ser uma tarefa de alto nível e de politização popular, provoca o efeito contrário. O debate desanda e as ofensas surgem inevitavelmente. O adversário passa ser um inimigo. Os diálogos necessários dão lugar aos cansativos e agressivos monólogos. E as divergências político-partidárias passam a soar como insultos e provocações. Então, qual a grande conseqüência desse processo de rebaixamento da política? Demagogia e intolerância. A grande ironia desse processo de degradação é que ele parte e é liderado justamente por aqueles setores e mecanismos que deveriam ser exemplares. A política, as eleições, os partidos e os candidatos. Afinal, serão os futuros líderes e comandantes de municípios, estados e a própria nação. Mais grave: investidos nas funções formais de representação e poder de estado. A conjunção de fatores negativos é terrível. Se há a degradação da palavra, dos costumes e das idéias políticas por intoxicação e contaminação, e vige, afinal, a demagogia e a intolerância, restam no poder os mais servis, sob a liderança dos novos déspotas, e se afastam os cansados e dissidentes do autodestrutivo processo. E restam vitimados o pensamento crítico e a democrática divergência. Situações e razões mais do que suficientes para prestarmos atenção no presente processo eleitoral, nos partidos, nos candidatos, nos seus discursos e promessas, de modo que resulte um voto de qualidade, renovação e esperança.

31 agosto 2012

O Discurso da Submissão

O teor dos discursos e a submissão dos partidos reforçam o pessimismo em torno da carente atualização, coerência e descentralização tributária nacional. Passamos “uma vida inteira” defendendo a necessária descentralização tributária e o máximo de empoderamento dos municípios e estados. E o que vimos nos palanques eleitorais midiáticos e eletrônicos e nos discursos em geral? Uma sucessão de loas ao governo central. Bordões sucessivos diziam, e continuam dizendo, da “amizade” com o governo central, das ligações partidárias e da importância dessas relações para carrear recursos. Inacreditável. Um retrocesso discursivo-ideológico de mais de 20 anos. Uma pobreza de responsabilidade e convicção sobre republicanismo que nos devolve “à idade média e à submissão real”. E assim assegurados e assentados sobre a alardeada unanimidade em torno da figura do “rei”, agora “rainha”, a busca insana pelo voto e pelo poder reproduziu as demagógicas falas de submissão tributária. Atuais e futuros feitos e obras cantadas em prosa e vídeo à conta da benemerência e generosidade “real”. Como se os recursos federais brotassem ao sabor da natureza e não fossem resultado da espoliação do próprio povo. Nos sucessivos processos eleitorais, municipais e estaduais, principalmente, se esperava que houvesse uma sincronizada reação de todos contra o excesso e a centralização tributária da corte de Brasília. Uma digna reação de quem se pretenda munícipe e líder regional e popular! Assim, mantida a natureza da omissão e submissão, seja por incompetência política ou “interesse”, não importa, o que resulta? Legitimada, inspirada e endinheirada, “a realeza e sua corte” se move como que imantados por um salvo-conduto comportamental. E a ponderar pelos renovados e recentes indicadores de preferência popular, inclusive dos numerosos afilhados eleitos e reeleitos, nada há a reclamar. Ou será apenas parte da memória pública esclerosada? A verdade sucumbe. O povo se “entrega” e assiste à metódica e sistemática desconstrução da verdade, sob o predomínio da indiferença e da não indignação. A julgar pela peregrinação e o beija-mão, a sedução é tão intensa que todos sucumbem. Claro e compreensível, é da natureza dos partidos e dos políticos seu agudo instinto de sobrevivência. Muda o discurso, muda o comportamento, muda o que for necessário e de acordo com a nova perspectiva. Submetem-se às exigências do vir-a-ser. É tão “natural e inocente” o procedimento da “corte” que “todos” assimilam e legitimam seus valores e sua conduta. Então, como é possível desafiar essa “verdade” e sua perenidade e inevitabilidade temporal? Uma nação que já se uniu em torno das bandeiras nacionais da anistia, das diretas-já e da constituinte, não será capaz de erguer a última e urgente, a única e fundamental bandeira? Ou já não há motivos de esperança relativamente ao municipalismo, o federalismo e a república?

29 agosto 2012

Por que votar?

A crise do sistema político representativo não é uma particularidade brasileira. O sentimento de frustração popular também é percebido na Europa e nos Estados Unidos. As disputas políticas em geral têm se caracterizado em mera luta pelo poder. O poder pelo poder. Ou o poder para obter vantagens e enriquecimento pessoal. Não necessariamente em defesa da geléia geral, mas explicando e tentando justificar a confusão, também é verdade que devamos reconhecer que a atualidade mundial é de absoluta inquietude, inconstância e com graves crises cíclicas. Crises sociais e econômicas que começam discretas, locais e setoriais, para logo, logo, serem escandalosas, interregionais e gerais. A freqüência das crises e suas características diferenciadas têm causado grande confusão nos governos, nos partidos políticos e naquilo que identificávamos como suas convicções ideológicas. Dito de outro modo, objetiva e resumidamente, nem o mercado tem mais a capacidade de auto-regulação, e nem o estado tem o poder de resolução e “apagar incêndios”. Ultimamente, entre nós brasileiros, as faces mais comuns e freqüentes da degradação do processo político-partidário têm sido o clientelismo, a corrupção e o cinismo. Conseqüentemente, não é a toa que a população rejeita e hostiliza a política. Os jovens em sua maioria a ignoram quase que por completo. O que mantém as aparências e dissimula nossa crise de representação é a obrigatoriedade do voto. Em outros países, notadamente na Europa, os índices de abstenção servem como referência para denunciar e rechaçar as disputas políticas medíocres e seus métodos. Assim, desinteresse popular, abstenção e voto nulo funcionam como forma de crítica e denunciam as práticas e métodos políticos que não oferecem alternativas, que confundem a opinião pública, e que, dia após dia, tornam os partidos cada vez mais iguais entre si. Programática e comportamentalmente. Diante do descrédito na política e nos políticos, e frustrados com a (deliberada ou não) geléia ideológica, a pergunta dominante entre as pessoas sempre era a seguinte: em quem votar? Mas, ultimamente, a pergunta é outra: por que votar? Essa pergunta revela e confirma a gravidade do momento que vivemos. Possivelmente, há dois aspectos extremamente danosos na política brasileira. Primeiramente, o estado brasileiro é exageradamente centralizador e arrecadador. Há poder e dinheiro demais em Brasília. O segundo ponto diz respeito ao poder legislativo. Teoricamente, um poder soberano, Mas, na pratica e de modo crescente e objetivo, é, hoje, absolutamente submisso ao poder executivo. Resulta disso, em moto contínuo, que não há mais representantes do povo. O objetivo principal de vereadores e deputados é fazer parte do governo!

22 agosto 2012

Face a face(book)

O “rei” Roberto Carlos pareceu prever o fenômeno do Facebook ao gravar, em 1974, a música “Eu quero apenas”, mais conhecida por “Um milhão de amigos”. Lembra? “Eu quero apenas cantar meu canto, eu só não quero cantar sozinho, eu quero um coro de passarinhos, quero levar o meu canto amigo a qualquer amigo que precisar, eu quero ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar”. O que explica o sucesso e a popularidade do Facebook? Diversão, entretenimento e/ou solidão? Ou, um inevitável desejo humano e universal de dizer ao mundo “eu existo, sou feliz e tenho amigos”? E que também tem dinheiro, que viaja, que comprou uma bolsa Louis Vuitton de vinte mil reais, e...? Afinal, ninguém posta fotos e comentários sobre seus momentos de fracassos e tristezas! O assunto é inesgotável e se presta às mais variadas análises e conclusões. Simplificando, poderíamos dizer que é retrato e extrato da condição humana. Não é a toa que pesquisas e testes realizados por neurocientistas norte-americanos confirmam que falar de si, se gabar, se expor voluntariamente – que é o que gente faz a maior parte do tempo! – gera sensações de recompensas cerebrais equivalentes às sensações de comida e sexo. E outra pesquisa afirmou que “navegar no Facebook ou outra rede social aumenta nossos níveis de narcisismo e a nossa autoestima”. Mas seremos mesmo assim tão belos e felizes, siliconados e photoshopados ou não, e com tantos amigos? Com certeza, é muita superficialidade, irrealidade e pouco conteúdo. Uma brincadeirinha coletiva e exagerada. Então, como explicar que tantos postam ali momentos muito íntimos e particulares de suas vidas, devassando-as para “todo o mundo”? Assumindo riscos no tocante à sua integridade pessoal e familiar, ignorando os alertas dos especialistas em segurança virtual? Os criminosos cibernéticos não estão mais no futuro. Eles já estão aí e aqui, prontos para atormentar e chantagear. Isso sem falar em atitudes de risco de ex-amores inconformados. O Facebook é um Frankenstein fora de controle, que poderá a qualquer momento voltar-se contra seus postadores. Será que a necessidade de bem falarmos a nosso respeito e dizer ao mundo da quantidade de amigos e momentos felizes que temos e vivemos não será apenas um retrato abobalhado e patético de um mundo em exagerado ritmo e competição? Ou será uma reveladora compreensão e percepção inconsciente de que tememos nossa própria inutilidade, esquecimento e descarte social? Apesar de atuarmos em todas as plataformas, meios sociais e mídias possíveis, superconectados, não é verdade que nunca estivemos tão sós? E com tanta publicidade e devassidão pessoal, o que sobrará em cada um de nós, importante e suficiente, para provocar no outro descobertas e encantamento com nossas personas?

16 agosto 2012

Danem-se os fatos!

Ainda sobre o julgamento do “mensalão” no Supremo Tribunal Federal. O ministro Dias Toffoli não se deu por impedido na sessão inaugural. Aquele teria sido o momento e o gesto adequado. Tinha o dever ético do autoimpedimento. Mas não o fez. Afinal, fora advogado do PT, assessor jurídico de José Dirceu na Casa Civil (além de seu advogado pessoal) e Advogado-Geral da União. Chamou atenção também o fato do procurador-geral não haver solicitado o impedimento de Dias Toffoli. Talvez para evitar atritos adicionais que possam retardar a continuidade das sessões. Mas é o que deveria ter feito. Tinha o direito e o dever. Mas não o fez. Aliás, retardamento que ocorreu no mesmo e primeiro dia. Provocado pelo longo e surpreendente voto do ministro Levandowski. Surpreendente nem tanto pela qualidade, mas, pasmem, por suas 56 páginas previamente preparadas. Defendeu e votou a favor da mencionada questão de ordem de Thomaz Bastos. Ficou parecendo jogada ensaiada de ambos. Pode? Tocante as defesas até agora apresentadas pelos advogados, há evidentes unanimidades argumentativas. Em resumo, “todos acusados são inocentes, e se mal e errado algo fizeram, foi apenas a não contabilização (sic) de recursos financeiros de campanha eleitoral”. Tudo se resumiria ao famoso “caixa dois”, pecado e prática que todos cometem de sul a norte, de leste a oeste do Brasil varonil, partidos políticos e empresas, políticos e empresários. Falaram assim os advogados dos réus do "mensalão", cínica e debochadamente, perante o tribunal maior. Refrão da ladainha: não existe pecado ao sul do Equador! A novidade foi o argumento do defensor de Roberto Jefferson, o ex-juiz gaúcho e agora advogado Luiz Francisco Barbosa, que reclamou sobre a não presença do ex-presidente Lula no banco dos réus. “Se três ex-ministros estão no banco dos réus, porque seu então chefe não está?”, perguntou. A retórica predominante quer fazer crer que tudo se resume e limitará a exame pessoal e parcial de perspectivas e pontos de vista. Simples assim como (pre)julgamos os outros em nossas conversinhas pessoais, no dia-a-dia. Então, prevalecerá um argumento do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), quando disse que “os fatos não existem, mas, sim, a interpretação dos fatos”. Ou então, como diria o escritor, dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues (1912-1980), como reza a lenda: “Se os fatos são contra mim, pior para os fatos!”.

08 agosto 2012

Eleições: o que voce precisa saber

O que decide uma eleição? Quais são seus momentos mais significativos? O que pesa mais em relação a um candidato: um fato positivo ou um fato negativo? O que você sabe sobre os candidatos e seus planos? Aliás, o que realmente você sabe sobre política e eleições? O que mais aflige os candidatos durante todo o processo eleitoral é a qualidade e a efetividade de sua comunicação. Não apenas a sua própria, mas a comunicação exercida pela imprensa. Rádio, jornal e televisão, principalmente. Tocante a imprensa, a verdade é que ela se detém mais nas gafes e contradições dos candidatos, nas pesquisas eleitorais e nas intrigas e provocações de parte a parte. Ironicamente, é como nos telejornais. Prevalece o excêntrico e o escandaloso.Ou seja, também nas eleições parece que o público prefere mais a “fantasia do que o realismo”. Prefere mais o “diz-que-diz-que” acerca de um candidato do que conhecer detalhes do seu plano de governo. Sobre plano de governo, equipes de trabalho, qualidade e conteúdo, igualmente muito pouco a imprensa divulga, analisa e comenta. Não se trata de responsabilizar a imprensa. Nem de idealizar o processo eleitoral. De um modo ou de outro, a imprensa retrata os interesses do eleitorado, aquilo que o atrai pelas mais diversas razões. Nesse sentido, trabalhos e pesquisas acadêmicas na área da ciência política confirmam e explicam algumas práticas dos partidos políticos e seus candidatos. Por exemplo, tocante a propaganda eleitoral no rádio e na televisão, algo que gera maior lembrança, eficácia e memória do/no eleitor são aquelas peças publicitárias que atuam por contrastes. Na ação partidária por “contraste” se comparam os candidatos, mostrando suas diferenças. Apontando os defeitos de um e exaltando as virtudes de outro. Esse tipo de propaganda exige critérios eficazes de apuração e identificação daquilo que realmente interessa ao cidadão, capaz de influenciar e decidir seu voto. E aquilo que faz a diferença entre um e outro candidato. Outra prática, mas de menor eficácia e memória do cidadão, chamada de publicidade "negativa”, é aquela que age e provoca imputações negativas ao adversário. Em geral, essa é uma prática não desejada pelos candidatos. Pesquisas imediatas parecem confirmar que essa “propaganda” gera mais incômodos do que vantagens. Há, inclusive, um chavão que diz que “quem bate, perde!”. Entretanto, está comprovado que essas mensagens negativas imputadas ao adversário ficam gravadas mais tempo na memória do eleitor. E, finalmente, a estratégia mais ineficaz é, porém, a mais utilizada nas campanhas. É a denominada comunicação e propaganda “defensiva”, na qual o candidato se limita a mostrar o que já fez e apresentar o que pretende fazer. Pesquisas indicam que são as menos impactantes e menos lembradas pelo eleitor.

01 agosto 2012

Esperteza Julgada

Seja no âmbito dos municípios e estados, ou na própria esfera federal, a cooptação de parlamentares não é uma novidade. Pode ter fins específicos ou gerais do poder executivo. Aprovação de um projeto de lei, por exemplo. Ou, ambiciosamente, um projeto de poder prolongado. Haja vista a expressiva fragmentação da atual representação político-partidária, um projeto de médio-longo prazo demanda a formação de maiorias. Maiorias fisiológicas. Não ideológicas. E sua moeda de troca e compensação pode se dar através de liberação de emendas orçamentárias, aceitação de indicações partidárias e pessoais para cargos públicos, tráfico de influência, entre dezenas de hipóteses possíveis. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi acusado de formar uma maioria “comprada” de modo a obter a aprovação do direito à reeleição. Claro que o aprovado direito à reeleição também foi para prefeitos e governadores. Que podem, em tese, ter colaborado nos mesmos moldes para a formação da dita “maioria cooptada”. Também não esqueçamos o “mensalinho mineiro”. Mas o “mensalão petista” foi algo mais audacioso, mais estratégico. E, ao mesmo tempo, estúpido. A esperteza está sempre mais próxima da estupidez e da arrogância do que da genialidade. Típico caso em que os meios deveriam justificar os fins. Deu no que deu. Através de manipulação de gastos em publicidade governamental, licitações e contas bancárias fraudadas e drenagem de dinheiro público, trata-se um autêntico crime contra o sistema republicano, democrático e representativo. Em agosto de 2005, em rede nacional de TV, Lula disse que o seu governo e o PT tinham de "pedir desculpas”. E que se sentia "traído por práticas inaceitáveis, das quais não teve conhecimento”. Hoje, porém, Lula anda por aí dizendo que o "mensalão é uma farsa. E que nunca existiu”. Se for verdade que não existiu e que é tudo uma farsa, o que foi aquilo tudo que vimos na televisão, dia após dia, gravações após gravações, saques após saques bancários e milionários? E os relatórios da Policia Federal e do Ministério Público o que são? 50 mil páginas, tudo invenção, tudo criatividade? Nesse caso, se invenção e farsa, com tantos delegados de polícia e promotores públicos criativos e contadores de estórias e intrigas, como é que a gente ainda não ganhou o prêmio Nobel de Literatura?